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	<title>Revista Teórica Pobres &#38; Nojentas</title>
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	<description>Blog para postagem de artigos jornalísticos e científicos sobre comunicação e jornalismo</description>
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		<title>Revista Teórica Pobres &#38; Nojentas</title>
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		<title>O sexto ano da Pobres ou sobre como reverter um revisticídio</title>
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		<pubDate>Fri, 29 Jul 2011 18:15:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Soberania comunicacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Elaine Tavares &#8211; jornalista A revista de reportagem Pobres e Nojentas entrou, neste 2011, no seu sexto ano de vida. Nascida em maio de 2006 chegou como um espaço onde as vozes caladas dos empobrecidos e das vidas da periferia pudessem se expressar. A mídia “normal” é casa do poder, é lugar onde as [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=401&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares &#8211; jornalista</strong></p>
<p>A revista de reportagem Pobres e Nojentas entrou, neste 2011, no seu sexto ano de vida. Nascida em maio de 2006 chegou como um espaço onde as vozes caladas dos empobrecidos e das vidas da periferia pudessem se expressar. A mídia “normal” é casa do poder, é lugar onde as gentes não têm vez, onde só aparecem como vítimas ou bandidas. Na Pobres não, é lugar da palavra bendita, do povo que faz a história andar, dos que lutam, dos que assumem suas escolhas, dos que insistem em dizer: “aquilo que é, não pode ser verdade”.</p>
<p>Mas a Pobres é uma revista de papel, que precisa ser impressa na gráfica, que precisa de dinheiro para se pagar. Em Santa Catarina, periferia da periferia, é sempre muito difícil fazer coisas que precisem de grana. Afinal, no capitalismo dependente já conhecemos a lição: para que um viva, outro precisa morrer. É espaço da competição, do jogo, da picuinha. Não aceitamos isso! Recusamos-nos a caminhar por essa vereda. Nas palavras do nazareno nos miramos: estamos no mundo (capitalismo), mas não somos do mundo. Por isso vamos pelejando para nos manter vivas, a despeito de tudo.</p>
<p>A esquerda esclarecida, essa que vive detonando a mídia comercial burguesa, não compra a Pobres. Quer de graça. Mas a nossa idéia é oferecer essa iguaria aos empobrecidos. A lógica sempre foi: os que têm dinheiro pagam e as gentes recebem nas comunidades a sua voz impressa. Então, a cada edição vivemos o impasse. Temos a palavra, mas não temos o dinheiro para imprimi-la. Os amigos dizem: “façam virtual, que não tem custo”. Não. As gentes empobrecidas não têm acesso ao virtual. Elas estão na vida, buscando o pão do agora. Não passam seus dias a navegar na internet. Então, apostamos no talvez.</p>
<p>Toda edição é assim. Escrevemos, fazemos, mandamos para a gráfica. Quando ela chega, alguma de nós dá um cheque (coisa antiga) para 30 dias, e nesse ínterim temos de rebolar para conseguir o dinheiro que venha cobrir o “voador”. No geral não conseguimos. Temos um único apoio, do Sindprevs-SC, o sindicato dos previdenciários, que dá 200 reais. E é tudo. O resto é batalha. No mais das vezes sai do nosso salário. Mas a Pobres renasce a cada edição. </p>
<p>Nesse inverno de 2011, reunidas na acolhedora Pizzaria San Francesco, aquecidas pela jarra de vinho da casa, tomamos uma dolorosa decisão: matar a Pobres. Não dava mais. O prejuízo acumulado, a falta de compreensão dos colegas, a desesperança com tudo no mundo. Cada revista lançada vinha sempre acompanhada das críticas “construtivas” dos amigos que, no geral, sequer a compravam. “Essa revista não tem projeto editorial”, “ a diagramação é muito quadrada”, “os temas são muito caóticos”. E a gente perseverando porque, afinal, nas comunidades aonde ela chegava, as pessoas se maravilhavam, e liam, e comentavam, e recriavam os seus próprios mundos a partir de suas palavras vivas no papel. </p>
<p>Mas, nesse inverno, estação de recolhimento e esterilidade, decidimos cometer o “revisticídio”. Estava selado o destino. Devolveríamos o dinheiro aos assinantes, que são poucos, e ponto final. Dali saímos mudas, algumas em lágrimas. As quatro cavaleiras do apocalipse assumiam seu destino de destruidoras de mundos. </p>
<p>Três semanas se passaram e nós em silêncio, fazendo os trâmites da número 27, que seria a última. Tudo na lentidão, quase um ritual de auto-imolação. Mas ontem, dia 28 de julho, resolvemos nos ver, tomar um chope, chorar as pitangas. Foi um dia duro para todas nós. Eleição perdida no sindicato, batalhas judiciais, amigas em sofrimento, só coisa ruim. “Vamos purgar isso tudo, em comunhão”. E fomos. </p>
<p>No centro de Florianópolis, no aconchego do Café Cultura, a noite gelada apareceu como aquele misterioso dia da chamada ressurreição do Cristo. Ali estávamos, as Marias, em lágrimas, ainda chorando a morta: nossa revista Pobres e Nojentas. Então, não sei se sob o efeito do chope, ouvimos a famosa frase: “Por que procurais entre os mortos aquela que vive?”</p>
<p>Percebemos que ao longo dessas três semanas tudo o que fizemos foi pensar e falar da Pobres. Não havia como matá-la. Ela vive e caminha. A voz das gentes não pode ser sufocada por um cheque sem fundos, por um desassossego pessoal, por um momento de desesperança. A Pobres vai continuar. O revisticídio se desfez. Da fria tumba da morte a nossa “nojentinha” voltou ao mundo dos vivos. </p>
<p>Assumimos assim o seguinte compromisso com nossos leitores das comunidades de Florianópolis e assinantes do Brasil: a revista seguirá seu caminho. Se o projeto é caótico, assumimos. A vida é caótica. A beleza se produz do caos. Se a diagramação é quadrada, assumimos seu jeito, porque é o nosso, é o que podemos fazer. Talvez ela não saia bimestralmente, como tentamos até agora, a duras penas. Mas ela sairá, vivinha, no papel, pela nossa força, talvez uma em cada estação, celebrando a existência humana. Porque é essa palavra viva que nos alimenta e nos move. Somos jornalistas, construtoras de mundos, narradoras da vida real, essa que viceja nas estradas de chão. </p>
<p>Então, saímos da invernal tristeza erguidas em rebelião. A Pobres vive, caótica, errática, quadrada, louca, soberana. Entra no seu sexto ano, está na Banca da Catedral, está na comunidade. E caminha, nas veredas desse Brasil, contando as histórias que ninguém quer contar. Importunando, desalojando, incomodando, tal qual Diógenes, com a lanterna acesa durante o dia claro, a clamar: procuro o homem! Nós, as quatro cavaleiras do apocalipse, apressamos o galope. Não para a destruição, mas para a vida! </p>
<p>A Pobres continua, no caos, e há de gerar estrelas! Já estamos a fazer a Pobres da Primavera&#8230; </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/401/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=401&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Alguns dilemas do Jornalismo</title>
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		<pubDate>Fri, 24 Jun 2011 17:56:12 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica de mídia]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Elaine Tavares &#8211; jornalista No debate promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina para discutir liberdade de expressão, o jornalista Celso Martins trouxe um aspecto da realidade que não aparece muito na discussão sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão. A Fenaj insiste no argumento redutor de que o diploma [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=398&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares &#8211; jornalista</strong><br />
No debate promovido pelo Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina para discutir liberdade de expressão, o jornalista Celso Martins trouxe um aspecto da realidade que não aparece muito na discussão sobre a exigência do diploma para o exercício da profissão. A Fenaj insiste no argumento redutor de que o diploma do jornalista melhora o jornalismo que a sociedade vai receber. Isso soa de certa forma até pueril e mostra o quanto alguns dirigentes da categoria estão mesmo completamente alienados da vida real. Celso Martins &#8211; que defende o diploma porque acredita que é uma forma de garantir certos direitos aos trabalhadores – problematizou a questão da liberdade de expressão lembrando que desde a consolidação das técnicas jornalísticas inventadas pelos estadunidenses e copiadas de forma acrítica pelos brasileiros os jornalistas perderam a capacidade de dizer sua palavra. Na prática, diz Celso, os jornalistas, que antes eram intelectuais e publicavam longos artigos de opinião e análise, tornaram-se porta-vozes de vozes alheias e não têm mais espaço para um texto de profundidade e de opinião. No geral, quem opina nos jornais são os famosos “articulistas” que necessariamente não precisam ser jornalistas formados, e o texto de profundidade há muito sumiu das redações. </p>
<p>Além das novas técnicas e das novas tecnologias que acabam obstaculizando o bom jornalismo, as condições de trabalho também calam a voz do jornalista. Muitos são obrigados a segurar dois empregos, ganham salários aviltantes, vivem a lógica da superexploração. Isso os torna também piores pessoas, fazendo com que avance o egoísmo e a falta de solidariedade de classe. “O jornalista mesmo já não tem espaço nos jornais e na TV. Não tem como dizer sua palavra”. Assim, se a liberdade de expressão é, como explicou o procurador João dos Passos, a possibilidade de – tendo o espaço – a pessoa não ter sua palavra censurada, então, esse é um artigo muito em falta no jornalismo. O procurador catarinense, analisando os argumentos do STF sobre liberdade de expressão, interpreta a Constituição de forma diferente. Segundo ele, a liberdade de expressão não significa que a pessoa possa falar onde queria e o que queira. “O que a lei diz é que o conteúdo da fala de alguém que tenha um espaço onde se expressar, não pode ser tolhido. Isso não significa que a pessoa possa reivindicar falar em qualquer espaço. Há regras e elas precisam ser respeitadas”. No caso do jornalismo, não haveria obstáculo à lei a obrigatoriedade do diploma. Mas, o STF entendeu diferente.</p>
<p>Outro aspecto que raramente é lembrado nessa cruzada pela retomada do diploma é o papel das universidades. Na convenção de solidariedade a Cuba, no início do mês de junho, em Porto Alegre, conheci uma jornalista gaúcha, Tania Faillace, da velha guarda, que tem uma posição bastante crítica da lógica de mercantilização que tomou conta da educação depois dos anos 40. Segundo ela, cursos esdrúxulos e inúteis, criados apenas para a reserva do mercado, provocaram trágicas brigas entre radialistas e jornalistas, relações públicas e publicitários, acabando, ao final, prejudicando em grande parte os gráficos e todo o pessoal da &#8220;cozinha&#8221; do jornal impresso. “Eles foram substituídos pela informatização generalizada, que faz um jornalista (com diploma) fazer (muito mal) o trabalho de: repórter, redator, revisor, diagramador, pré-impressor e outros”. </p>
<p>Tania defende que os jornalistas de hoje em dia não deveriam fazer a tarefa dos gráficos, mas o que vê são garotos e garotas recheadas de egoísmo, achando maravilhoso poder fazer tudo e dispensar os demais. “E, assim, eles são operadores informáticos razoáveis, péssimos redatores, com a maioria sequer conhecendo bem o português, e piores analistas de fatos, que é uma exigência básica para se fazer um jornalismo razoável. O jornalismo é uma atividade política e não técnica”. </p>
<p>Por conta dessa idéia ela questiona de forma radical o papel da universidade nos dias de hoje e sua incapacidade de atuar no sentido de transformar a sociedade. Para Tania, o sistema universitário brasileiro tem como objetivo principal manter as classes sociais nos seus “devidos lugares”, sem garantir aos filhos dos trabalhadores o conhecimento que realmente interessa. Ela não acredita que o diploma, saído de uma universidade como a que existe atualmente possa garantir qualidade. Nesse sentido, discutir a universidade e os cursos de jornalismo também é papel de quem se preocupa com a formação do ser que vai exercer a profissão de jornalista. Não bastasse isso, necessário seria também discutir o acesso aos cursos, como bem lembra Tania. Quem consegue hoje fazer uma universidade pública, de qualidade? E qual a qualidade das dezenas de cursos de jornalismo que as universidades privadas oferecem a peso de ouro? As perguntas são muitas e as respostas ganham mais luz dependendo do interesse de cada um.</p>
<p>Se o jornalismo é uma atividade política, como diz Tania, por que foram tiradas dos currículos cadeiras teóricas importantes que envolvem a compreensão da economia, da política, da arte e da cultura do país? Por que os chamados “melhores cursos” são os que direcionaram seus currículos para as áreas técnicas, como se saber fazer uma página na internet fosse o supra-sumo do jornalismo? Por que os debates críticos sumiram das universidades sobrando apenas a mente cativa e colonizada? Na minha modesta compreensão, o jornalismo é atividade política e técnica, e ambas devem andar juntas, siamesas.</p>
<p>Já para os empresários da comunicação, pensar é coisa perigosa. Jornalista precisa saber o mínimo da técnica e ter o máximo de domesticação. Sem maiores compreensões sobre as forças que regem o mundo capitalista de produção, os estudantes dos cursos de jornalismo saem das salas de aula direto para os “matadouros” empresariais levando na bagagem o aprendizado da técnica e da ideologia dominante. E, essa, exige competição, egoísmo, individualismo exacerbado. A vida lá fora é vista como um campo de guerra em que o mais esperto e mais bonito sairá vitorioso. Não é sem razão que hoje, enquanto entram pela porta da frente os jovens e competitivos recém formados, dispostos à multifunção e a superexploração, pela porta de trás saem os jornalistas mais velhos, muitos deles já bem próximos da aposentadoria, porque são muito “antiquados” no trato do jornalismo. Eles insistem em fazer reportagens, enquanto os patrões exigem que dirijam, fotografem, editem, diagramem, revisem, montem blogs, filmem, criem páginas. E tudo isso, uma pessoa só.</p>
<p>Estas são algumas das faces do problema que é fazer jornalismo hoje no Brasil. O diploma é uma delas. No fundo da questão está o tipo de sistema que rege a nação. Enquanto persistir o modo capitalista de produção, a luta dos trabalhadores será sempre reativa, será quase sempre um processo de redução de danos, de “menos pior”. No debate que envolve a decisão do STF precisa ser considerado esse ponto. A volta do diploma, por si só, não garante nada. Como lembra o Celso Martins, os jornalistas seguiriam calados, sem direito a voz real. E também no cotidiano da empresa os trabalhadores seguiriam sendo explorados da mesma forma. A luta então poderia se pautar por um horizonte mais ousado, de mudanças radicais, de transformação real do sistema de organização da vida. </p>
<p>Mas, ainda uma boa parte dos jornalistas acredita que é uma raça superior, afeita e propícia aos salões do poder. Esses parecem não ter recebido a “triste notícia”, como dizia Brecht: não são superiores, são apenas trabalhadores num mundo de superexploração. Mudar esse estado de coisas parece ser a única saída possível. Lembro aqui o caso de Cuba. Para um jornalista de lá é quase incompreensível esse debate que levamos aqui no Brasil. “Como assim, diploma?” É que na ilha caribenha, onde o povo cubano fez uma revolução e destruiu o modo capitalista de produção, qualquer um tem acesso à universidade, seja ele taxista, cozinheiro ou jornalista. Por isso, em Cuba, este tipo de questão não tem sentido. </p>
<p>Já para os jornalistas locais, enquanto não se muda a vida, estes são alguns nós. Cabe desatá-los. Mas nunca sem perder de vista de que há outras formas possíveis de caminhar no mundo. E pavimentar esses caminhos pode ser uma boa coisa para se fazer. Na universidade e fora dela. </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/398/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=398&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O bloqueio midiático a Cuba é qualificado</title>
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		<pubDate>Fri, 17 Jun 2011 15:45:46 +0000</pubDate>
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		<description><![CDATA[Por Elaine Tavares – jornalista Conferência proferida na VI Convenção de Solidariedade a Cuba, em Porto Alegre, partilhando mesa com os jornalistas Marcos Weissheimer (Carta Capital) e Norelys Morales Aguilera (Cuba). A gente já ouviu na fala do Marcos Weissheimer de que é feita nossa mídia. Então, não há nada de errado com o fato [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=396&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares – jornalista</strong></p>
<p><em>Conferência proferida na VI Convenção de Solidariedade a Cuba, em Porto Alegre, partilhando mesa com os jornalistas Marcos Weissheimer (Carta Capital) e Norelys Morales Aguilera (Cuba).</em></p>
<p>A gente já ouviu na fala do Marcos Weissheimer de que é feita nossa mídia. Então, não há nada de errado com o fato de todos fazerem o bloqueio qualificado com relação a Cuba. Digo qualificado porque na verdade, só há bloqueio para um determinado tipo de notícias. Nós podemos ver, por exemplo, a exaustão, um desses barcos cheios de gente fugindo de Cuba em direção a Miami nas redes nacionais. E matérias emocionadas de repórteres baseados em Miami. E comentários dos âncoras dos jornais nacionais. Estas notícias não são bloqueadas. Pelo contrário. São disseminadas. É mesma velha lógica já muito bem elaborada por Noam Chomsky no seu livro “Os guardiões da liberdade”. Nesse livro ele explica como os meios de comunicação nos Estados Unidos lidam com as notícias ruins das nações amigas e com as notícias ruins das nações inimigas. Os jornais e TVs falam de tudo que acontece. A questão é: como falam? Chomsky mostra que as notícias ruins nos países inimigos são trabalhadas de forma exagerada, desvirtuada, exaustivamente. Já quando é numa nação amiga, as notícias ruins também são dadas, não há censura, mas não passam de notas ou matérias evasivas. E como no Brasil seguimos o mesmo padrão estadunidense, é tudo muito igual.</p>
<p>Então isso é bem importante a gente frisar. Não há um bloqueio midiático a Cuba. Há um bloqueio das notícias boas, do que há de bom em Cuba. Dito isso, precisamos de novo partir desde a realidade para compreendermos porque isso acontece. Porque se bloqueia as coisas boas que acontecem em Cuba.</p>
<p>Essa é uma pergunta de fácil resposta. Cuba é hoje, talvez, o único país socialista do mundo inteiro. E isso não aconteceu assim, do nada. O que houve e o que há em Cuba é uma revolução. Isso também é muito importante lembrar. De novo, e sempre. É o único país desta parte do continente, que desde as guerras de independência iniciadas em 1810, fez uma revolução, venceu e permaneceu em processo revolucionário, destruiu toda a engrenagem de capitalismo dependente que havia na ilha e caminhou para o socialismo. Isso não é bolinho.</p>
<p>Então o problema não é Cuba, não é Fidel, Raul ou Che. É o socialismo. Essa coisa contaminante, avassaladora que se anunciada pode provocar muitos estragos, aqui e em qualquer parte. Quando o povo cubano lá pela metade dos anos 50 do século passado começou a se mobilizar contra a ditadura de Batista, o império ficou olhando meio desconfiado. Poderia ser uma boa mudança, desde que o poder seguisse nas mãos dos mesmos. Então, as vozes que vinham da cadeia depois do assalto ao quartel Moncada, anunciando uma revolução democrática, não pareciam tão assustadoras. E isso é verdade, o começo da luta juntou proletários, camponeses, estudantes e burguesia. Todos queriam o fim da ditadura. A luta em Cuba se fez em todas as frentes. Na cidade, no campo, na universidade, na fábrica, nos pequenos comércios, nas pequenas fazendas. Havia concretamente uma aliança de classe e para o império, conquanto a burguesia dirigisse o processo estava muito bem. Por que o império sabe que se pode mudar a cara de um governo, torná-lo mais democrático, com respeito aos direitos humanos e coisa e tal, sem mudar em nada as estruturas do sistema. É a velha lição do dar os anéis para não perder os dedos.</p>
<p>Só que depois, a chegada do Granma, os barbudos nas montanhas, a Rádio rebelde, as greves, as mobilizações nas cidades, a organização crescente dos revolucionários de todas as cores, a grande greve de outubro de 58, foi mostrando que ali havia um povo inteiro em revolução – e não apenas um pequeno grupo incrustado na Sierra Maestra &#8211; e isso perturbou o império. Ainda assim, quando as tropas rebeldes entraram em Havana em janeiro de 1959, ninguém tinha muita certeza sobre o que aconteceria. O gabinete de governo provisório – que incluía os burgueses &#8211; falava em manter os negócios com os estados Unidos. A festa era pelo fim da ditadura.</p>
<p>Foi o povo alçado em rebelião, armado, que afastou os burgueses do comando, as forças populares avançaram por dentro da revolução, queriam mudanças radicais. Não aceitariam menos que um câmbio total. Assim, a esquerda foi se tornando hegemônica no processo. Havia o compromisso de solucionar os problemas econômicos que eram estruturais, os problemas sociais, mas sempre com a participação direta do povo. Assim, o caráter democrático/burguês da revolução cubana vai até a metade do ano de 1960, conforme estudos de Vania Bambirra, expressos no seu livro A revolução cubana – uma reinterpretação. A partir daí vem o novo, e Cuba deixa de ser uma incógnita. Era um país que caminhava para o socialismo. “O que Cuba será agora depende só de nós” dizia Fidel. E os cubanos, de forma participativa decidiram que não havia mais espaço para o capitalismo dependente. Criaram o novo. Compreender essa história é crucial para entender o bloqueio qualificado da mídia burguesa.</p>
<p>E por quê? Bueno. A América Latina é um continente oral. E isso não é dito como coisa boa. A colonização nos deixou essa herança. O analfabetismo é gigantesco. As pessoas se informam pelo ouvido. Não é a toa que mais de 80 dos brasileiros se informem pela televisão. Há os que não sabem ler, os que não aprenderam que ler é bom e os que não têm tempo para ler por conta do processo de superexploração do trabalho. O homem e a mulher comuns chegam a casa e ligam a televisão. Ali vão saber das notícias.</p>
<p>Agora imaginem esse homem e essa mulher, superexplorados pelo sistema capitalista dependente que domina o nosso país – assim como a maioria dos países latino-americanos &#8211; sabendo da verdade sobre Cuba? Imaginem eles saberem que um povo se armou, se organizou no campo e na cidade, lutou e venceu. E que esse povo mudou totalmente a estrutura organizativa do estado. Que socializou a economia, que mudou as relações de produção, que destruiu toda a estrutura política e jurídica do velho estado, que inventou novas formas de poder, de organização social e de cultura.</p>
<p>Imagine eles saberem que esse povo comanda a nação, que eliminou materialmente a estrutura do capitalismo dependente que fazia de Cuba um prostíbulo e uma imensa fazenda estadunidense. Que nacionalizou todos os bancos, que desapropriou todas as terras das companhias estrangeiras, que assumiu o controle do comércio, que existem comitês populares de defesa da revolução, que a saúde , a educação e a moradia são garantidas. Imaginem?</p>
<p>E se a rede Globo contasse sobre como funciona a democracia cubana, que é participativa, que envolve cada família desde a rua onde mora, que as gentes conhecem seus problemas e propõem soluções e que são ouvidas, de verdade. Que inveja doida isso não ia dar?</p>
<p>É por isso que o tal bloqueio qualificado não fala disso. Prefere falar dos que fogem para Miami, da “ditadura” de Fidel, da falta de democracia. A ideia que as pessoas têm de Cuba é a de que um único homem dita as regras. É incognoscível para a mentalidade burguesa dos jornalistas ignorantes ou vendidos que fazem as coberturas, compreender que as eleições cubana, por exemplo, não tem absolutamente nada a ver com as do mundo capitalista burguês. As criaturas querem comparar o incomparável. Como comparar a eleição no Brasil, na qual as gentes votam sob o domínio da ditadura financeira, com a cubana? Cadê a reportagem falando das intermináveis assembléias e da participação cubana em todas as decisões? Não tem! Porque não interessa.</p>
<p>Bom, quero agora entrar agora no que fazer para mudar isso. Porque de Cuba os que estamos aqui sabemos um pouco. O que importa é pensar alternativas para furar o tal do bloqueio qualificado. As propostas práticas. Olha, eu tenho algumas tristes notícias para dar.</p>
<p>A primeira é de que não existe possibilidade de solidariedade concreta a Cuba se não estivermos dispostos a mudar radicalmente a organização da vida nos nossos próprios países. Como bem diz o grande Ruy Mauro Marini, no prefácio do livro da Vânia Bambirra sobre Cuba, o imperialismo não é um fenômeno externo ao capitalismo latino-americano, mas é elemento constitutivo deste. E não se esgota na face visível de capital estrangeiro, transferência de mais valia, do monopólio etc&#8230; O imperialismo se manifesta na forma que o capitalismo dependente assume aqui, a partir da própria dependência – financeira, política, cultural e midiática – na superexploração do trabalho, na concentração do capital. Assim, fazer solidariedade a Cuba é fazer a luta contra isso, aqui no nosso país, porque eliminar essa dependência é eliminar o capitalismo. Não há anti-imperialismo possível fora da luta pela liquidação do capitalismo, fora da luta por outra forma de organizar a vida, que podemos chamar de socialismo, ou sumac kausay, ou sumac camaña , ou Yvy Rupa.<br />
A segunda notícia triste é de que não há possibilidade nenhuma de furar o bloqueio midiático contra Cuba sem a eliminação do capitalismo. Pelas mesmas razões. A mídia burguesa, capitalista, imperialista, cortesã, não vai garantir espaços para nós. Para a Cuba socialista. Não vai. É ingenuidade essa luta redutora por democracia na comunicação dentro do sistema capitalista tal como ele se expressa no nosso país. Nós não podemos aceitar a migalha de mais democracia, mais justiça, mais liberdade, mais movimentos populares na TV, mais negros, mais homossexuais. Porque isso significa que alguém fica de fora. E o comandante, el Che, já dizia “ enquanto houver um companheiro injustiçado, a luta tem de seguir. É democracia , é justiça, é liberdade. É presença, é controle dos grandes meios. E ponto.</p>
<p>A terceira má noticia é de que nós nunca chegaremos lá se seguirmos como vamos. Movimentos sociais apáticos, vendidos, cooptados. Sindicatos silentes, dirigentes atuando apenas em horário comercial, lutas terceirizadas, fragmentadas. Incapacidade de atuação em bloco, de articulações nacionais. Olha aí o código florestal, a vergonha que foi, o massacre, a certeza de que o legislativo é uma farsa. Olha aí Belo monte, tudo passa sem que os movimentos se juntem num bloco único de força e luta. Estamos vivendo como amebas esperando as benesses de um governo que já mostrou a que veio e a quem serve desde a reforma da previdência em 2003. Amebas não mudam o mundo.</p>
<p>Mas, também há boas notícias. E eu quero dá-las. Existem muitas propostas de comunicação alternativa, popular, comunitária. Muitas mesmo. E todas dispostas à solidariedade, a furar o cerco midiático contra Cuba, a disseminar as idéias de socialismo e de vida boa. E agora, com o advento da internet, gente que nunca poderia falar está falando. Existem os blogs, as páginas dos movimentos e tudo mais. Agora eu pergunto. Quem nos lê? Quem navega por nossas páginas? A quem atingimos com nossas palavras? Qual é a eficácia do nosso discurso?</p>
<p>Não sei aqui, mas às vezes lá em santa Catarina, eu apareço na televisão. Essas coisas rituais de jornalismo televisivo. Menos de 15 segundo numa matéria bem idiota sobre o Campeche, por exemplo, ou sobre a greve na UFSC. No dia seguinte, aqueles 15 segundo nos quais eu apareci na RBS são de domínio de todo mundo. Meus vizinhos passam por mim e dizem: Te vi na TV, heim? Na universidade as pessoas me gritam: Te vi na Tv. Enfim, mesmo meus compas mais radicais da esquerda emburrada dizem: Te vi na TV. Eles vêem a RBS também&#8230; Ou seja, a gente faz uma luta de anos, mobilizamos uma comunidade inteira para um ato na câmara, e os 15 segundos na RBS são mais eficazes do que todo o trabalho feito antes&#8230; percebem o que quero dizer, onde quero chegar? Temos de tomar essas emissoras de televisão, de comunicação de massa. Como bem dizia o velho Brizola. Ele era um gênio político. Sabia que a primeira coisa era tomar a Globo. Porque o nosso povo engravida pelo que vê na TV. Comunicação de massa.</p>
<p>Ah, mas e enquanto isso? Enquanto não tomamos a Globo. Temos de criar redes. Temos de potencializar nossas falas. Elas têm de estar em todos os veículos alternativos, populares e comunitários ao mesmo tempo. E ainda assim seremos pouco eficazes. Mas temos de fazer esse esforço. Superar o sectarismo, fazer uma aliança mínima em torno das grandes questões. Em Santa Catarina criamos a Rede Popular de Comunicação Catarinense, juntamos forças.</p>
<p>A solidariedade a Cuba passa por aí. Temos de formar redes, estabelecer nexos, atuar em uníssono. Mas, para além disso, temos de mudar o país. Temos de destruir o capitalismo e varrer a burguesia, a classe dominante. Essa é nossa principal forma de ser solidário com Cuba, de furar o bloqueio.</p>
<p>Marini alertava que o socialismo não é simplesmente uma forma econômica, ele é , uma economia, uma política, uma cultura que exprime os interesses de uma classe: o proletariado, ou os oprimidos, e se opõe aos interesses da classe dominante. E se o socialismo é a revolução que opõe o proletariado contra a burguesia não há lugar para ela no bloco histórico das forças que construirão o socialismo. Daí ser impossível a conciliação de classe ou a união com a burguesia. Por isso é impossível esperar democracia de informação da Globo, do Estadão, da RBS. É impossível isso, companheiros.</p>
<p>Diz Marini: “A luta pelo socialismo é uma luta política para quebrar a resistência da classe dominante e destruir as suas bases materiais de existência, como fez Cuba”. E isso se faz na força, na luta mesma, não é com nhem nhem, nhem. Ou fazemos isso ou não há esperanças nem pra nós, nem para Cuba. Então, o nosso compromisso como jornalistas e comunicadores é ser eficaz. Fora disso é dilentantismo, é demagogia, é musculação de consciência. Nosso papel é, para além de anunciar desgraças, como fazemos toda a hora, é também anunciar a boa nova. Dizer como é bom o socialismo ou o sumac kausay&#8230; engravidar as pessoas com a promessa do socialismo.. coisa que o capitalismo faz tão bem, como mostra Ludovico Silva ao explicar como funciona a mais-valia ideológica.</p>
<p>Então compas&#8230; Não há receitas&#8230; Há algumas intuições, outras certezas, algum juízo moral. E aí, ou embarcamos nessa luta com todas as nossas forças, ou vamos sempre andar por aí a choramingar que a Globo não nos dá espaço. O velho Marx já nos avisou, estamos em luta, luta de classe.</p>
<p><strong>3 e 4 de junho de 2011 &#8211; Porto Alegre/RS</strong></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/396/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=396&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A jornada das sete horas ou o 5 + 2</title>
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		<pubDate>Wed, 16 Mar 2011 01:13:37 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Ser jornalista]]></category>
		<category><![CDATA[Sindicatos]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares &#8211; jornalista</strong></p>
<p>O sindicato dos trabalhadores jornalistas tem, reiteradas vezes, recebido pedidos de informação sobre a questão do intervalo de uma hora para quem faz jornada de sete horas nas empresas de comunicação. Cabe, então, tecer alguns comentários sobre esse tema no geral, para, depois, entrar no detalhe da questão do intervalo. Em primeiro lugar, é bom que fique claro que a jornada de trabalho para jornalistas é de cinco horas.  E isso não é um número jogado ao acaso. Essa jornada significa muitos anos de lutas sistemáticas para conquistar esse direito. É que o trabalho do jornalista é coisa estressante demais.</p>
<p>Estudos sobre a saúde do jornalista dão conta de que as enfermidades que mais acometem estes profissionais são: doenças cardíacas, ansiedade, alcoolismo e depressão. Não é para menos. Os jornalistas vivem um cotidiano recheado de estresse. É o acúmulo de trabalho, a pressão por conta do tempo final (as matérias têm de ser entregues numa determinada hora), más condições de trabalho, a loucura dos trânsitos caóticos, os problemas com equipe de trabalho, e, além do mais o cara-a-cara com a vida real, seja nas suas tragédias cotidianas ou na impotência da política.  Assim, as cinco horas já são uma carga imensa de adrenalina, tensão e responsabilidade.</p>
<p>As empresas de comunicação, visando garantir uma superexploração do trabalho e buscando driblar a lei, oferecem ao trabalhador a “opção” de fazer uma jornada de cinco horas, mais duas, num total de sete horas. A lei prevê que, caso o trabalhador aceite o pacto, isso é possível. Mas a lei também prevê que haja um intervalo de uma hora no meio da jornada para que o trabalhador possa descansar e se alimentar. Ou seja, para quem sabe contar, o profissional acaba ficando as mesmas oito horas na empresa e ainda trabalha muito mais. Afinal, na jornada de oito horas o descanso é de duas horas. Então, esse acordo que os patrões empurram goela abaixo aos trabalhadores é a concretização deste palavrão que costumamos usar, buscado na obra teórica do economista Ruy Mauro Marini: superexploração.<br />
Não bastasse isso, existem algumas redações que ficam completamente fora de mão, o que obriga os trabalhadores a ficarem confinados dentro das empresas. O resultado é que fazem um lanche e seguem trabalhando, sem respeitar a parada de uma hora. </p>
<p>O sindicato sabe que a maioria dos trabalhadores, na verdade, não tem escolha. Ou assinam o contrato de sete horas, ou tem uma fila enorme esperando para assumir a vaga. Então é coisa difícil de resistir. Mas seria de bom alvitre que os jornalistas pudessem pensar sobre isso. Não valeria a pena se rebelar contra isso? Uma rebelião coletiva? Todos se negando a assinar o contrato, exigindo as cinco horas? Utopia? Pode ser, mas é ela que tem de ser o nosso horizonte. As cinco horas, repetimos, não é um número ao acaso, elas dão conta de uma jornada de trabalho que permite minimamente a qualidade de vida.</p>
<p>Mas, se não houver jeito mesmo, e o contrato de sete horas for assinado, é preciso defender com unhas e dentes o descanso de uma hora. Mesmo aqueles que ficam confinados. Procurem usar essa uma hora para lanchar e descansar, para fazer uma boa conversa sobre o trabalho, sobre as condições com que estão realizando as tarefas, sobre as lutas que precisam ser travadas. Exijam a uma hora. É direito, e faz com que a “maquininha” chamada vulgarmente de “corpo” possa recarregar as baterias. Não importa se não há para onde ir. Há que parar. Fazer meditação, cantar um mantra, conspirar contra os patrões. Qualquer coisa. Essa hora é um direito. </p>
<p>Alguns colegas pedem para o sindicato que negocie o fim desta uma hora, que a jornada seja corrida. Não poderíamos fazer isso. E não simplesmente porque é a lei. É que sabemos o quanto a jornada de sete horas pode ser estressante e demolidora. </p>
<p>Então, a proposta que concretamente colocamos aqui é essa. A luta pelas cinco horas. Isso é fundamental. Enquanto os trabalhadores seguirem aceitando esse acordo explorador, as coisas seguirão como estão. Os patrões têm a lei, e os trabalhadores não têm sequer organização. E isso não é uma coisa que o sindicato tem que fazer pelo trabalhador. Isso é luta política, coletiva. Não é coisa de uma direção ou uma vanguarda. Ou se assume a luta conjunta ou a exploração segue. O sindicato é guarida e alavanca de organização. </p>
<p>E, enquanto a jornada de sete horas existir, façam valer o descanso. Ele é necessário. Uma olhada no estudo do médico Roberto Heloani, disponível na página do Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina (http://www.sjsc.org.br/noticias_det.asp?cod_noticia=1183 ), já dá mostra do que é a vida do jornalista e como ele pode adoecer por não observar a necessidade de um bom ambiente de trabalho e um descanso real.  Jornalista é trabalhador e como tal deve fazer valer suas bandeiras de luta. </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/392/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=392&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Sobre jornalismo, literatura e a metáfora do poço</title>
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		<pubDate>Tue, 01 Feb 2011 02:15:17 +0000</pubDate>
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				<category><![CDATA[Ser jornalista]]></category>

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		<description><![CDATA[Míriam Santini de Abreu Ando a me meter na vereda literária. Não com crônicas, que gosto de fazer, mas desta vez com uma novela que prometi a um amigo que é editor de um jornal semanal. Antes de iniciar a empreitada, pesquisei sobre o assunto. Romance, novela, conto, crônica, todos têm elementos que os diferenciam. [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=389&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Míriam Santini de Abreu</strong></p>
<p>Ando a me meter na vereda literária. Não com crônicas, que gosto de fazer, mas desta vez com uma novela que prometi a um amigo que é editor de um jornal semanal.<br />
Antes de iniciar a empreitada, pesquisei sobre o assunto. Romance, novela, conto, crônica, todos têm elementos que os diferenciam.<br />
A crônica tem como base a vida real, que o olhar do cronista captura, e o cronista pode ou não ser jornalista. Há muito tempo os jornais acolheram a crônica. Mas novela é ficção, ritmo rápido, ação o tempo todo, personagens que entram e saem, que ora são protagonistas, ora figuras secundárias. Há espaço para o mistério, o grotesco, o patético, e sempre deve ficar no ar, a cada episódio, um fio de mistério para atrair o leitor ao capítulo seguinte.<br />
Mas a minha novela não estará na tv, e sim em um jornal semanal, que circula em uma cidade específica. Cada capítulo deve ser curto, em torno de 4 mil caracteres. Escrevê-la tem sido um desafio e uma revelação.<br />
Há muitos bons livros sobre as diferenças e aproximações entre jornalismo e literatura. Mas o que tem ficado claro para mim, nisso tudo, se mostra por uma metáfora que vou usar: a metáfora do poço.<br />
Os jornalistas sabem que escrever uma reportagem extensa é sangrar. Isso porque textos deste tipo envolvem pesquisa, domínio de recursos literários, capacidade de observação, intuição e muitas entrevistas. E depois isso tudo, alinhavado e costurado, vira o texto da reportagem.<br />
Eu chego à conclusão de que a parte em que a gente mais sangra é na hora de entrevistar e de escrever, e isso por causa do poço. Mas depende do tipo de reportagem. Reportagens de denúncias, por exemplo, que envolvem mais pesquisa e entrevistas nas quais se quer aprofundar o caso – e não a vida do entrevistado &#8211; , são diferentes daquelas que envolvem a busca de um ser, do que um certo fato significou na vida dele, de uma comunidade.<br />
Vejo dentro de cada ser um poço. Eu conheço – um pouco &#8211; o meu: a profundidade, a espessura do limo, o cheiro e o gosto da água. Conheço pedras onde posso me apoiar quando desejo sair do contato com a água, e sei de seu silêncio e de seus animais, que ali também habitam.<br />
O grande problema é que, mesmo os outros sendo como eu – humanos – eu nada sei do poço deles. Não posso garantir que o poço do outro tenha a característica do meu. Cada poço é único. E, em uma entrevista, o que a gente faz é isso, sondar o poço. Mesmo em uma pequena notícia, posso ver o poço de longe e já dizer alguma coisa. Em um texto maior, sento na beira do poço do outro, olho lá embaixo, toco as paredes. Em casos extremos, entro com ele no poço que a ele pertence, mas posso sair quando quiser – se for belo ou assustador &#8211; ficando ele com as estranhezas de suas águas e eu com as minhas. Entrar no poço do outro é o auge da reportagem em profundidade, mas essa os jornais, hoje em dia, pouco fazem.<br />
Mas, depois, o que sangra ainda mais é escrever, porque aí o jornalista terá que interpretar o que viu, sentiu, tocou. Terá que descrever o poço do outro, o sentir-se ali. E muitos nada sabem do seu próprio. Como interpretar o do outro, a dor, o prazer que ali habitam? Este é o poder e o pavor quando se usa a linguagem. Cito uma frase de Antonio Olinto:</p>
<p>“Parece instável o mundo das palavras. O homem que nele vive sente faltar-lhe, a cada passo, o solo, como se os sons estivessem sempre em fuga, tentando afastar-se do pensamento. O jornal malbarata palavras com espantosa prodigalidade. Joga-as ao vento, ao uso de todos os leitores, transforma-as em ruídos e sinais às vezes sem significação. O jornalista tem, em seu poder, essa grandeza e essa miséria. E a afirmação desse contraste não é a permanência de uma atitude romântica em relação à linguagem. É a caracterização de um dilema, de um sentimento de luta”.</p>
<p>Sim, essa grandeza e essa miséria é que assaltam o jornalista que precisa falar do poço do outro.<br />
Escrever essa pequena novela me fez pensar sobre o motivo pelo qual tenho essa relação com poços e cisternas. Acabei por lembrar de um episódio da infância. Perto da casa de minha avó Antônia havia ainda muito mato naquela época, e ela alertava, sobre um determinado lugar que oferecia perigos reais:<br />
- Nunca entrem ali, pois há um poço bem oculto que quase não tem fundo.<br />
Eu devia ter uns oito anos, e uma vez percorrei metade do caminho proibido, até ficar apavorada demais e voltar.<br />
E agora compreendo também porque amo tanto a história bíblica de José, que foi jogado ao poço por seus irmãos, ou das sete mulheres da terra da Madiã que tiravam água do poço para dar de beber ao rebanho do pai. E porque fiquei umas duas semanas sem dormir direito depois de ver aquele filme horrível, “O Chamado”.<br />
Agora, percebo que escrever ficção tem esta vantagem: pode-se entrar no nosso poço e também inventar o poço de todos os outros, formas, espessuras, odores. Sou onisciente. Os poços são todos meus, e deles faço o que quero, e falo deles o que desejar e inventar. Podem ser abundantes e com água limpa, limosos, secos&#8230; Isso é absolutamente libertador. Mas não me iludo. Deve haver um preço. Ainda não sei qual&#8230; </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/389/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=389&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Só jornalista!</title>
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		<pubDate>Sun, 19 Dec 2010 06:06:56 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ser jornalista]]></category>

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		<description><![CDATA[Elaine Tavares Outro dia, numa dessas atividades acadêmicas, fui confrontada com uma situação da qual quase não me lembro, mas que outras pessoas fazem questão de lembrar. Não sou professora. Convidada que fui para dialogar com um aluno sobre seu projeto de mestrado que trata do povo boliviano, lá fui toda serelepe, porque gosto de [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=386&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Elaine Tavares </strong></p>
<p>Outro dia, numa dessas atividades acadêmicas, fui confrontada com uma situação da qual quase não me lembro, mas que outras pessoas fazem questão de lembrar. Não sou professora. Convidada que fui para dialogar com um aluno sobre seu projeto de mestrado que trata do povo boliviano, lá fui toda serelepe, porque gosto de saber que na academia ainda tem gente que se preocupa em estudar coisas que verdadeiramente interessam, como neste caso, a retomada da identidade do povo aymara e a proposta do Sumac Qamaña (o bem viver). </p>
<p>Então, foi a vez de me apresentarem. Como sempre eu abrevio a apresentação. Elaine Tavares, jornalista. Ao que a professora responsável pela atividade redargüiu: “- só jornalista?” Pois é. Sou isso. Só jornalista. Nem doutora, nem professora, nem coisa nenhuma mais que jornalista. Talvez, para a academia, coisa menor. Mas, para mim, coisa maiúscula. Sou jornalista, destas que pensa o mundo, que narra, que contextualiza, que estuda a história, que busca nexos, que caminha com os empobrecidos, que rastreia a vida das gentes, que opina, que interpreta, que se emociona, que sente raiva, que investiga.</p>
<p>Sou jornalista. E é bom repetir isso. Porque, afinal, esse fazer humano anda tão desgastado. Sou jornalista e me compraz esse comprometimento com a vida mesma, essa coisa sublime que é decodificar os discursos prolixos e compartilhar o conhecimento com as pessoas, doutoras ou não. Encanta-me encontrar alguém na rua que, sabendo da minha condição de jornalista diz: “gostei daquele texto teu. Tão `simplinho´ que eu entendi tudo”. Esse é meu prêmio, minha estatueta de ouro. Quando as palavras que eu faço nascer caminham nas gentes. </p>
<p>Dentro da universidade parece que não importa muito o que a gente faz, e sim os títulos que temos. Isso às vezes incomoda, mas é só um segundo, porque nos faz lembrar a eterna rixa entre professores e técnicos, que não acaba nunca e que é tão burra. Mas, enfim, para aqueles que realmente importam, que são os estudantes que auscultam a vida real, pessoas como eu ainda têm valor. Não sou professora, nem doutora, e isso não me dói. São as escolhas. Sou jornalista e isso é muito bom! </p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godelicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/delicious/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gofacebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/facebook/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gotwitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/twitter/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gostumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/stumble/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/godigg/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/digg/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/goreddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/reddit/revistapobresenojentas.wordpress.com/386/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=386&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Mídia de SC foi “encoleirada” por Eike Batista</title>
		<link>http://revistapobresenojentas.wordpress.com/2010/11/29/midia-de-sc-foi-%e2%80%9cencoleirada%e2%80%9d-por-eike-batista/</link>
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		<pubDate>Mon, 29 Nov 2010 15:59:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica de mídia]]></category>

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		<description><![CDATA[Míriam Santini de Abreu, jornalista Nos idos de 1998, a atriz Luma de Oliveira provocou polêmica ao desfilar em uma escola de samba com uma coleira na qual estava gravado o nome do então marido, o empresário Eike Batista. Passados 12 anos, quem permaneceu meses a fio – e não apenas uma noite de Carnaval [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=383&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Míriam Santini de Abreu, jornalista</strong></p>
<p>Nos idos de 1998, a atriz Luma de Oliveira provocou polêmica ao desfilar em uma escola de samba com uma coleira na qual estava gravado o nome do então marido, o empresário Eike Batista. Passados 12 anos, quem permaneceu meses a fio – e não apenas uma noite de Carnaval – encoleirada pelo homem mais rico do país foi a mídia catarinense. Um adjetivo resume a cobertura dos meios impressos – aqui analisados de forma mais sistemática na edição de apenas um dia (17/11/2010) &#8211; sobre a planejada (e agora aparerentemente cancelada) instalação de um estaleiro na Grande Florianópolis: jornalismo constrangedor.<br />
Uma das regras (há exceções) de nomear um entrevistado nos meios impressos é a seguinte: na primeira menção escreve-se o nome completo; nas seguintes, usa-se o sobrenome. Pois Eike Batista, nos jornais, não é Batista, é Eike. Assim, próximo, quase como se fala com um vizinho, um amigo de longa data. “Eike desiste do estaleiro em SC”, diz o título da reportagem especial publicada pelo carro-chefe dos impressos do Grupo RBS, o Diário Catarinense.<br />
Este Eike Batista vem de uma família há décadas achegada ao poder. O pai, Eliezer Batista, já em 1949 foi contratado pela então estatal Companhia Vale do Rio Doce, na qual tornou-se presidente em 1961. Neste posto manteve-se até 64, assumindo novamente a presidência entre 1979 e 1986, a convite do então general João Figueiredo. Como presidente da Vale pela segunda vez, também foi o responsável pelo Projeto Grande Carajás, que passou a explorar as riquezas da província mineral dos Carajás &#8211; uma área de 900.000 km².<br />
Essas relações foram consolidando prestígio e poder. O jornal Brasil de Fato (http://www.brasildefato.com.br/node/289) informa que Eike Batista é também o maior magnata de petróleo do país. “Através dos leilões realizados nos campos brasileiros, com auxílio direto de ex-diretores e ex-gerentes da Petrobras, contratados por ele, sua empresa, a OGX, tornou-se o maior grupo privado de exploração marítima do Brasil”. Em termos de áreas de exploração de petróleo em mar, a companhia dele só perde para a Petrobras, da qual Batista tirou e contratou, por salários para lá de vantajosos, diretores e gerentes que teriam acesso a informações privilegiadas sobre áreas de exploração e produção do Brasil e do exterior.</p>
<p>“Eike” nos jornais – 17 de novembro<br />
No dia 17 de novembro, a alardeada desistência da instalação do estaleiro teve a seguinte cartola, manchete e linha de apoio no Diário Catarinense, impresso que é o carro-chefe do Grupo RBS no Estado:<br />
OSX bate martelo<br />
Estaleiro não será em Santa Catarina, decide Eike Batista<br />
Dificuldades na liberação de licenças ambientais fizeram com que o empresário decidisse construir o projeto em um complexo portuário do Rio de Janeiro<br />
Nas páginas 4 e 5, a cartola e o título estampavam:<br />
Adeus R$ 2,5 bilhões<br />
Eike desiste do estaleiro em SC<br />
Vale reproduzir a abertura da reportagem:<br />
“Os golfinhos venceram, e os moradores das praias do Norte da Ilha não precisam mais se preocupar. O Estaleiro OSX, um empreendimento de mais de R$ 2,5 bilhões e geração de 14 mil empregos, não vão vai ficar em Santa Catarina”.<br />
O texto prossegue e informa que o novo local, no RJ, tem vantagens, em vários aspectos, bem maiores do que em SC. É de se perguntar, portanto, porque o Grupo do bilionário número 1 do país e seus parceiros internacionais insistiam em implantar o empreendimento no entorno de três Unidades de Conservação da Natureza na Grande Florianópolis. Mas a informação mais interessante é a seguinte: “No Rio de Janeiro, o empresário sabe que não terá problemas no futuro. É amigo do governador Sérgio Cabral e já tem muitos investimentos no Estado”. A coluna Informe Econômico, na mesma edição, diz que Biguaçu foi inicialmente escolhida porque Elizer Batista era próximo do ex-governador Luiz Henrique da Silveira, agora eleito senador por SC. É o que está por trás da velha ladainha empresarial, de que o Estado não deve intervir na iniciativa privada. Antes fosse, porque já não se trata da figura do Estado, e sim das amizades, do compadrio, que definem o futuro de comunidades inteiras.<br />
Ao final do texto principal, lemos o seguinte: “O Grupo EBX anunciou que estuda outros empreendimentos para a propriedade em Biguaçu. O megaterreno já comprado poderá receber algum investimento do grupo. Como Eike sempre disse que não instala empresas onde não se considera bem-vindo, o que vem por aí não deverá chegar nem perto do que viria”.<br />
Há entrevistados que lamentam o fato de o Grupo ter investido em SC, sem que se saiba agora o que será desses supostos investimentos. Digo “supostos” porque um deles, um Jardim Botânico em três locais da Capital, teria consumido R$ 650 mil em projetos. Quais projetos? Quem fez? Para planejar o quê? Não se sabe. O que fica é a impressão de o Grupo perdeu esse dinheiro. Onde? Para quem?<br />
O jornal Hora de Santa Catarina, também do Grupo RBS, no mesmo dia traz um destaque de capa: “Biguaçu não terá estaleiro da OSX”<br />
Na matéria da página 4, intitulada “Biguaçu sem ESTALEIRO”, o texto – resumido ao extremo &#8211; tem a mesma abertura risível do DC, resumindo o debate à proteção dos golfinhos e dos moradores do Norte da Ilha.<br />
No Jornal de Santa Catarina, igualmente do Grupo, com circulação na região de Blumenau, o título na página 9 foi esse: “OSX. Estaleiro de Eike vai para o Rio.” O texto, menor do que o estampado no DC, começa com a mesma abertura já mencionada. É prática do Grupo usar o texto de um mesmo jornalista nos vários impressos que circulam no Estado.<br />
O Notícias do Dia, do Grupo Ric/Record, circulou com a seguinte manchete: “Biguaçu perde o estaleiro para o Rio”. O jornal escolheu a página 3 para divulgar a decisão: “Rio de Janeiro fica com O ESTALEIRO”. No texto principal, a sempre mencionada criação de 4 mil empregos diretos e 4 mil indiretos e a informação, entre outras, de que o Grupo doaria R$ 20 milhões para a criação do Jardim Botânico de Florianópolis.<br />
Guardei uma edição do ND, de 5 e 6 de junho de 2010, na qual havia um encarte especial sobre Meio Ambiente (em referência do dia 5), e o que me chamou a atenção foi o fato de a página 8 estampar o título “Estaleiro terá tecnologia e sustentabilidade” e a linha de apoio “Projeto da OSX segue padrões mais avançados para esse tipo de empreendimento”. O texto parece saído diretamente do setor de marketing do Grupo, mas em nenhum momento o ND deixa isso claro, o que, nos meios de comunicação, se faz com inserção da expressão “Informe Publicitário”. Isso informa o leitor de que não se trata de texto jornalístico.</p>
<p>O dia seguinte<br />
O DC de 18 de novembro estampou, na capa, o seguinte:<br />
O que sobrou do Estaleiro<br />
Os novos planos que Eike Batista tem para o Estado<br />
Direção da EBX diz que empresa pode instalar quatro outros projetos, entre eles, um hotel-marina, no mesmo local em Biguaçu.<br />
No texto da página 6, intitulado “A Herança de Eike: o que ainda pode vir para o Estado”, há a informação de que, das sete empresas que formam o Grupo, uma está confirmada para atuar em SC, a REX, do setor imobiliário. Nada que impressione, dado que o prefeito de Biguaçu é ligado ao grupo Deschamps, de emprendimentos imobiliários.<br />
Vale mencionar que, ainda no dia 6 de novembro, o Grupo RBS assim tratou uma manifestação contra a instalação do Estaleiro: “Elite de Jurerê Internacional se une contra Estaleiro OSX”, com o seguinte início de texto: “A briga é de cachorro grande. Os ricos de Jurerê Internacional decidiram apoiar ambientalistas e pescadores contrários ao Estaleiro OSX em Biguaçu, na Grande Florianópolis”.<br />
Mas é certo que a visão do Grupo que traz a marca do oligopólio da comunicação no Estado apareceu bem antes, em 6 de junho de 2010, na página 14, dedicada aos “Grandes Temas”, No caso em questão, tratava-se do “Sim ao Desenvolvimento”. Do editorial extraio os seguintes trechos sobre o Estaleiro:<br />
“Esse empreendimento, que em qualquer sítio do mundo despertaria o júbilo do equilíbrio e da maioridade financeira, um pecúlio para as gerações do porvir, em Santa Catarina se vê ameaçado por uma ótica de viés obscurantista, que prevê, liminarmente, a impossibilidade de blindagem ecológica capaz de proteger o meio ambiente da região escolhida.<br />
Claras manifestações de má vontade – de vezo nitidamente ideológico e de aversão ao investimento &#8211; irrompem em instituições engajadas, que ingressam na jurisdição técnica da Fatma, órgão estadual qualificado para examinar com rigor científico e isenção as condições oferecidas pela OSX em seu relatório de impacto na área de implantação do estaleiro, ora em análise pela autoridade ambiental de Santa Catarina (grifos meus, para lembrar que a Fatma também foi elencada na até hoje mal-explicada Operação Moeda Verde).<br />
[...]<br />
Há no ar uma certa “ecoteocracia” temperada por um verdismo desmedido e insensato, entre a queda do Império Romano e a ascensão de Carlos Magno, em que a unidade básica da sociedade era a pequena aldeia agrícola. A única maneira de os homens estarem em harmonia com a natureza seria viverem “em nível de subsistência”.<br />
No dia 8 de junho, leio no mesmo DC, com a cartola “26 anos depois”, o título “Oito são condenados por desastre na Índia” acompanhado de matéria de Agência. Os acusados, hoje na faixa dos 70 anos, tiveram penas de até dois anos de prisão. Eles pagaram fiança e vão esperar em liberdade o resultado de um recurso. Foi a primeira condenação desde o acidente, em 1984, quando um vazamento em uma subsidiária da Union Carbide matou cerca de 25 mil pessoas em Bophal, na Índia.  Mas quem quer saber desses mortos? Sim ao Desenvolvimento!!!<br />
Recentemente a mídia noticiou que a “&#8230;OSX, empresa do setor naval e de equipamentos para a indústria de petróleo do empresário Eike Batista, quer financiamento do Fundo de Marinha Mercante e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para a construção do seu estaleiro no litoral norte do Rio. O investimento total do estaleiro, que, segundo a empresa, será o maior das Américas, é estimado em US$ 1,7 bilhão”. Ver em .<br />
Em seu livro “Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal” (Record, 2001), o geógrafo Milton Santos diz o seguinte (p.35): “A associação entre a tirania do dinheiro e a tirania da informação conduz, desse modo, à aceleração dos processos hegemônicos, legitimados pelo “pensamento único”, enquanto os demais processos acabam por ser deglutidos ou se adaptam passiva ou ativamente, tornando-se hegemonizados”.<br />
Acene-se com 14 mil empregos diretos e indiretos (quais, onde, por quanto tempo?) &#8211; e com um Grupo de Mídia a serviço dessa lógica &#8211; e temos instalado o “pensamento único”. Quem dele destoa é refém de uma “ótica de viés obscurantista”.<br />
No mesmo livro, Milton alerta para a morte da política com P maiúsculo, “,,, já que a condução do processo político passa a ser atributo das grandes empresas (p.60)”. E as grandes empresas, como se viu no caso de “Eike”, são sempre grandes amigas dos políticos. E assim elas chantageiam, ameaçam ir embora, sempre como o discurso de que são “salvadoras dos lugares (p.68)”, como diz Milton, estabelecendo guerras fiscais entre um estado e outro da federação. </p>
<p>“Nós e eles”<br />
O episódio da instalação do estaleiro escancarou quem, em Florianópolis, são os “nós” e os “eles”, que claramente se identifica nos conflitos na cidade.<br />
Vale a pena relembrar um caso exemplar, a instalação de um empreendimento empresarial turístico (campo de golfe) no balneário de Ingleses, em Florianópolis. Próximo ao empreendimento mencionado há uma comunidade, a Vila do Arvoredo, também conhecida como Favela do Siri, que começou a se formar nos anos 1980. No embate travado para a instalação do campo de golfe, é ilustrativo o conjunto de comentários feitos pelo então governador do Estado, Luiz Henrique da Silveira, em entrevista concedida à TVBV em abril de 2007, na qual há 17 minutos referentes à temática ambiental. Ver em http://video.google.com/videoplay?docid=-8286208201407673708#<br />
Nela o governador Luiz Henrique da Silveira menciona o assunto (1), quando questionado sobre a reclamação dos empresários em relação à “burocracia” e a “dureza” das leis ambientais:</p>
<p>1- Eu acho que nós vamos ultrapassar esse período negro, que não é possível que nós não possamos ter em uma ilha como essa, maravilhosa, certo, marinas para receber turistas estrangeiros com muito dinheiro que venham gastar aqui e gerar emprego. Que nós não consigamos fazer um campo de golfe, meu deus do céu. Em Marbela, você viu, tem 50 campos de golfe e por isso aquela vila pobres de pescadores foi transformada num dos maiores pólos milionários de turismo. Então nós precisamos ter uma evolução. O que as pessoas têm que ter em mente é que uma marina não polui. Nós vimos lá em Marbela, dentro da marina, a profusão de peixes que havia. Pelo contrário, ela desenvolve, ela embeleza. Ela traz um novo dinamismo para as cidades. Então nós temos que superar isso, estamos com um grave problema, eu vou dizer aqui especialmente para os florianopolitanos [...]. </p>
<p>No trecho seguinte (2), o governador classifica de “medievalismo” a posição do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) em relação às licenças ambientais e diz que é preciso descentralizar as decisões relativas às políticas de meio ambiente:</p>
<p>2 &#8211; Quem sabe cuidar mais de Florianópolis é o florianopolitano. É a Prefeitura, é o vereador. Quem sabe cuidar mais do meio ambiente do estado é o Governo do Estado, são os deputados estaduais. Então é preciso acabar com essa burrocracia [com dois erres na pronúncia] em que dois ou três técnicos lá em Brasília, longe da realidade, decidem as coisas, ou não decidem, porque um monte de processo, uma montoeira de processo não lhes dá tempo nem de examinar os processos. </p>
<p>Um dos apresentadores pergunta então se não é necessário haver controle em relação a isso, porque a natureza estaria “dando resposta” às ações humanas, ao que o governador questiona (3):</p>
<p>3 &#8211; E agora você me diz: e a favela do Siri, ali? Do lado do campo de golfe que não querem deixar o Fernando Marcondes [de Mattos, empresário] fazer? Por que não se proíbe a proliferação de favelas, que joga &#8211; me permita a expressão irada &#8211; cocô para a praia para provocar doenças nas nossas crianças? Por que não se atua nisso aí para impedir? Né? Por que não se atua nisso aí para impedir? A favela pode poluir a praia. Agora, um resort, um hotel, um campo de golfe, para atrair turista e gerar emprego e renda não pode. </p>
<p>Do ponto de vista discursivo, evidencia-se, na fala do governador, uma série de indícios que apontam para diferentes sujeitos sociais: “não querem deixar (&#8230;) fazer” (quem?); “nossas crianças” (quais?); “por que não se atua (&#8230;)” (quem?). No trecho 2, ele deixa explícitos, porém, os sujeitos sociais que seriam os mais capacitados para “cuidar” do “meio ambiente” do estado. E no trecho 1 está sinalizado o exemplo da “evolução”, o balneário de Marbella, na Costa do Sol, Espanha, totalmente descaracterizado pela especulação imobiliária estimulada pela corrupção (ver em http://ises-do-brasil.blogspot.com/2007/08/operao-moeda-verde-verso-espanha.html.<br />
Essas considerações nos levam que crer que a implosão desse modelo de jornalismo constrangedor, insustentável, é o desafio e o fardo do tempo histórico imposto aos jornalistas no Sul do mundo, expressão que retiro de livro de István Mészáros “O desafio e o fardo do tempo histórico: o socialismo no século XXI (Boitempo, 2007). Milton Santos acreditava que a mídia, sob a pressão das situações locais, deixará de representar o senso comum imposto pelo pensamento único. Então, como dizia Fox Mulder, eu também quero acreditar. Acreditar em uma mídia sem coleiras com a tirania do dinheiro e da informação</p>
<p>* Leia mais sobre o estaleiro na revista Pobres e Nojentas que circula em dezembro.</p>
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		<title>Liberdade de expressão: uma armadilha para pegar quem?</title>
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		<pubDate>Sat, 13 Nov 2010 16:28:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica de mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Soberania comunicacional]]></category>

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		<description><![CDATA[Por Elaine Tavares &#8211; jornalista O velho Marx já ensinou a muitos anos sobre o que é a ideologia. É o encobrimento da verdade. Assim, tudo aquilo que esconde, vela, obscurece, tapa, encobre, engana, é ideologia. É dentro deste espectro que podemos colocar o debate que se faz hoje no Brasil, na Venezuela, no Equador [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=381&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares &#8211; jornalista</strong></p>
<p>O velho Marx já ensinou a muitos anos sobre o que é a ideologia. É o encobrimento da verdade. Assim, tudo aquilo que esconde, vela, obscurece, tapa, encobre, engana, é ideologia. É dentro deste espectro que podemos colocar o debate que se faz hoje no Brasil, na Venezuela, no Equador e na Bolívia sobre o binômio “liberdade de expressão X censura”. Para discutir esse tema é preciso antes de mais nada observar de onde partem os gritos de “censura, censura”, porque na sociedade capitalista toda e qualquer questão precisa ser analisada sob o aspecto de classe. A tal da “democracia”, tão bendita por toda a gente, precisa ela mesma de um adjetivo, como bem já ensinou Lênin. “Democracia para quem? Para que classe?”.</p>
<p>Na Venezuela a questão da liberdade de expressão entrou com mais força no imaginário das gentes quando o governo decidiu cassar a outorga de uma emissora de televisão, a RCTV, por esta se negar terminantemente a cumprir a lei, discutida e votada democraticamente pela população e pela Assembléia Nacional. “Censura, cerceamento da liberdade de expressão” foram os conceitos usados pelos donos da emissora para “denunciar” a ação governamental. Os empresários eram entrevistados pela CNN e suas emissoras amigas, de toda América Latina, iam reproduzindo a fala dos poderosos donos da RCTV. Transformados em vítimas da censura, eles foram inclusive convidados para palestras e outros quetais aqui nas terras tupiniquins. </p>
<p>Lá na Venezuela os organismos de classe dos jornalistas, totalmente submetidos à razão empresarial, também gritavam “censura, censura” e faziam coro com as entidades de donos de empresas de comunicação internacionais sobre o “absurdo” de haver um governo que fazia cumprir a lei. Claro que pouquíssimos jornais e jornalistas conseguiram passar a informação correta sobre o caso, explicando a lei, e mostrando que os que se faziam de vítima, na verdade eram os que burlavam as regras e não respeitavam a vontade popular e política. Ou seja, os arautos da “democracia liberal” não queriam respeitar as instituições da sua democracia. O que significa que quando a democracia que eles desenham se volta contra eles, já não é mais democracia. Aí é ditadura e cerceamento da liberdade de expressão. </p>
<p>No Brasil, a questão da censura voltou à baila agora com o debate sobre os Conselhos de Comunicação. Mesma coisa. A “democracia liberal” consente que existam conselhos de saúde, de educação, de segurança, etc&#8230; Mas, de comunicação não pode. Por quê? Porque cerceia a liberdade de expressão. Cabe perguntar. De quem? Os grandes meios de comunicação comercial no Brasil praticam a censura, todos os dias, sistematicamente. Eles escondem os fatos relacionados a movimentos sociais, lutas populares, povos indígenas, enfim, as maiorias exploradas. Estas só aparecem nas páginas dos jornais ou na TV na seção de polícia ou quando são vítimas de alguma tragédia. No demais são esquecidas, escondidas, impedidas de dizerem a sua palavra criadora. E quando a sociedade organizada quer discutir sobre o que sai na TV, que é uma concessão pública, aí essa atitude “absurda” vira um grande risco de censura e de acabar com a liberdade de expressão. Bueno, ao povo que não consegue se informar pelos meios, porque estes censuram as visões diferentes das suas, basta observar quem está falando, quem é contra os conselhos. De que classe eles são. Do grupo dos dominantes, ou dos dominados? </p>
<p>Agora, na Bolívia, ocorre a mesma coisa com relação à recém aprovada lei anti-racista. Basta uma olhada rápida nos grandes jornais de La Paz e lá está a elite branca a gritar: “censura, censura”. A Sociedade Interamericana de Imprensa, que representa os empresários, fala em cerceamento da liberdade de expressão. Os grêmios de jornalistas, também alinhados com os patrões falam a mesma coisa, assim como as entidades que representam o poder branco, colonial e racista. Estes mesmos atores sociais que ao longo de 500 anos censuraram a voz e a realidade indígena e negra nos seus veículos de comunicação, agora vem falar de censura. E clamam contra suas próprias instituições. A lei anti-racista prevê que os meios de comunicação que incentivarem pensamentos e ações racistas poderão ser multados ou fechados. Onde está o “absurdo” aí? Qual é o cerceamento da liberdade de expressão se a própria idéia de liberdade, tão cara aos liberais, se remete à máxima: “a minha liberdade vai até onde começa a do outro”? Então, como podem achar que é cerceamento da liberdade de expressão usar do famoso “contrato social” que garante respeito às diferenças? </p>
<p>Ora, toda essa gritaria dos grandes empresários da comunicação e seus capachos nada mais é do que o profundo medo que todos têm da opinião pública esclarecida. Eles querem o direito de continuar a vomitar ideologia nos seus veículos, escondendo a voz das maiorias, obscurecendo a realidade, tapando a verdade. Eles querem ter o exclusivo direito de decidir quem aparece na televisão e qual o discurso é válido. Eles querem manter intacto seu poder escravista, racista e colonial que continua se expressando como se não tivessem passado 500 anos e a democracia avançado nas suas adjetivações. Hoje, na América Latina, já não há apenas a democracia liberal, há a democracia participativa, protagônica, o nacionalismo popular. As coisas estão mudando e as elites necrosadas se recusam a ver. </p>
<p>O racismo é construção de quem domina</p>
<p>Discursos como esses, das elites latino-americanas e seus capachos, podem muito bem ser explicados pela história. Os componentes de racismo, discriminação e medo da opinião pública esclarecida têm suas raízes na dominação de classe. Para pensar essa nossa América Latina um bom trabalho é o do escritor Eric Williams, nascido e criado na ilha caribenha de Trinidad Tobago, epicentro da escravidão desde a invasão destas terras orientais pelos europeus. No seu livro Capitalismo e Escravidão, ele mostra claramente que o processo de escravidão não esteve restrito apenas ao negro. Tão logo os europeus chegaram ao que chamaram de Índias Orientais, os primeiros braços que trataram de escravizar foram os dos índios.</p>
<p>Os europeus buscavam as Índias e encontraram uma terra nova. Não entendiam a língua, não queriam saber de colonização. Tudo o que buscavam era o ouro. Foi fácil então usar da legitimação filosófica do velho conceito grego que ensinava ser apenas “o igual”, “o mesmo”, aquele que devia ser respeitado. Se a gente originária não era igual à européia, logo, não tinha alma, era uma coisa, e podia ser usada como mão de obra escrava para encontrar as riquezas com as quais sonhavam. Simples assim. Essa foi a ideologia que comandou a invasão e seguiu se sustentando ao longo destes 500 anos. Por isso é tão difícil ao branco boliviano aceitar que os povos originários possam ter direitos. Daí essa perplexidade diante do fato de que, agora, por conta de uma lei, eles não poderão mais expressar sua ideologia racista, que nada mais fez e ainda faz, que sustentar um sistema de produção baseado na exploração daquele que não é igual.</p>
<p>Eric Williams vai contar ainda como a Inglaterra construiu sua riqueza a partir do tráfico de gente branca e negra, para as novas terras, a serem usadas como braço forte na produção do açúcar, do tabaco, do algodão e do café. Como o índio não se prestou ao jogo da escravidão, lutando, fugindo, morrendo por conta das doenças e até se matando, o sistema capitalista emergente precisava inventar uma saída para a exploração da vastidão que havia encontrado. A escravidão foi uma instituição econômica criada para produzir a riqueza da Inglaterra e, de quebra, dos demais países coloniais. Só ela seria capaz de dar conta da produção em grande escala, em grandes extensões de terra. Não estava em questão se o negro era inferior ou superior. Eram braços, e não eram iguais, logo, passíveis de dominação. Eles foram roubados da África para trabalhar a terra roubada dos originários de Abya Yala.</p>
<p>Também os brancos pobres dos países europeus vieram para as Américas como servos sob contrato, o que era, na prática, escravidão. Segundo Williams, de 1654 a 1685, mais de 10 mil pessoas nestas condições partiram somente da cidade de Bristol, na Inglaterra, para servir a algum senhor no Caribe. Conta ainda que na civilizada terra dos lordes também eram comuns os raptos de mulheres, crianças e jovens, depois vendidos como servos. Uma fonte segura de dinheiro. De qualquer forma, estas ações não davam conta do trabalho gigantesco que estava por ser feito no novo mundo, e é aí que entra a África. Para os negociantes de gente, a África era terra sem lei e lá haveria de ter milhões de braços para serem roubados sem que alguém se importasse. E assim foi. Milhões vieram para a América Latina e foram esses, juntamente com os índios e os brancos pobres, que ergueram o modo de produção capitalista, garantiram a acumulação do capital e produziram a riqueza dos que hoje são chamados de “países ricos”.</p>
<p>E justamente porque essa gente foi a responsável pela acumulação de riqueza de alguns que era preciso consolidar uma ideologia de discriminação, para que se mantivesse sob controle a dominação. Daí o discurso – sistematicamente repetido na escola, na família, nos meios de comunicação – de que o índio é preguiçoso, o negro é inferior e o pobre é incapaz. Assim, se isso começa a mudar, a elite opressora sabe que o seu mundo pode ruir.</p>
<p>Liberdade de expressão</p>
<p>É por conta da necessidade de manter forte a ideologia que garante a dominação que as elites latino-americanas tremem de medo quando a “liberdade de expressão” se volta contra elas. Esse conceito liberal só tem valor se for exercido pelos que mandam e aí voltamos àquilo que já escrevi lá em cima. Quando aqueles que os dominadores consideram “não-seres” &#8211; os pobres, os negros, os índios – começam a se unir e a construir outro conceito de direito, de modo de organizar a vida, de comunicação, então se pode ouvir os gritos de “censura, censura, censura” e a ladainha do risco de se extinguir a liberdade de expressão.</p>
<p>O que precisa ficar bem claro a todas as gentes é de que está em andamento na América Latina uma transformação. Por aqui, os povos originários, os movimentos populares organizados, estão constituindo outras formas de viver, para além dos velhos conceitos europeus que dominaram as mentes até então. Depois de 500 anos amordaçados pela “censura” dos dominadores, os oprimidos começam a conhecer sua própria história, descobrir seus heróis, destapar sua caminhada de valentia e resistência. Nomes como Tupac Amaru, Juana Azurduy, Zumbi dos Palmares, Guaicapuru, Bartolina Sisa, Tupac Catari, Sepé Tiaraju, Dandara, Artigas, Chica Pelega, assomam, ocupam seu espaço no imaginário popular e provocam a mudança necessária.</p>
<p>Conceitos como Sumak kawsay, dos Quíchua equatorianos, ou o Teko Porã, dos Guarani, traduzem um jeito de viver que é bem diferente do modo de produção capitalista baseado na exploração, na competição, no individualismo. O chamado “bem viver” pressupõe uma relação verdadeiramente harmônica e equilibrada com a natureza, está sustentado na cooperação e na proposta coletiva de organização da vida. Estes são conceitos poderosos e “perigosos”. Por isso, os meios de comunicação não podem ficar à mercê dos desejos populares. Essas idéias “perigosas” poderiam começar a aparecer num espaço onde elas estão terminantemente proibidas. É esse modo de pensar que tem sido sistematicamente censurado pelos meios de comunicação. Porque as elites sabem que destruída e ideologia da discriminação contra o diferente e esclarecida a opinião pública, o mundo que construíram pode começar a ruir. A verdadeira liberdade de expressão é coisa que precisa ficar bem escondida, por isso são tão altos os gritos que dizem que ela pode se acabar se as gentes começarem a “meter o bedelho” neste negócio que prospera há 500 anos. </p>
<p>Basta de bobagens</p>
<p>É neste contexto histórico, econômico e político que deveriam ser analisados os fatos que ocorrem hoje na Venezuela, no Equador, na Bolívia e na Argentina. O Brasil deveria, não copiar o que lá as gentes construíram na sua caminhada histórica, mas compreender e perceber que é possível estabelecer aqui também um processo de mudança. Neste mês de novembro o Ministério das Comunicações chamou um seminário para discutir uma possível lei de regulamentação da mídia brasileira. Não foi sem razão que os convidados eram de Portugal, Espanha e Estados Unidos. Exemplos de um mundo distante, envelhecido, necrosado, representantes de um capitalismo moribundo. As revolucionárias, criativas e inovadoras contribuições dos países vizinhos não foram mencionadas. A Venezuela tem uma das leis mais interessantes de regulamentação da rádio e TV, a Argentina deu um passo adiante com a contribuição do movimento popular, a Bolívia avança contra o racismo, o Equador inova na sua Constituição, e por aqui tudo é silêncio. Censura? </p>
<p>Os governantes insistem em buscar luz onde reina a obscuridade. E, ainda assim pode-se ouvir o grito dos empresários a dizer: censura, censura, censura. O atraso brasileiro é tão grande que mesmo as liberais regulamentações européias são avançadas demais. Enquanto isso Abya Yala caminha, rasgando os véus&#8230;</p>
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		<title>Apontamento sobre a censura e os conselhos de comunicação</title>
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		<pubDate>Thu, 04 Nov 2010 18:44:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Crítica de mídia]]></category>
		<category><![CDATA[Ser jornalista]]></category>
		<category><![CDATA[Soberania comunicacional]]></category>
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		<description><![CDATA[Elaine Tavares &#8211; jornalista Um tema bastante complexo tem tomado o imaginário brasileiro através das usinas ideológicas da classe média, as revistas semanais, e os telejornais das grandes redes: a censura. O motivo de tal questão ter vindo à baila é a proposta de institucionalização dos Conselhos Municipais e Estaduais de Comunicação. Jornalistas, comentaristas, analistas [...]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=revistapobresenojentas.wordpress.com&amp;blog=4463997&amp;post=378&amp;subd=revistapobresenojentas&amp;ref=&amp;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Elaine Tavares &#8211; jornalista<br />
</strong></p>
<p>Um tema bastante complexo tem tomado o imaginário brasileiro através das usinas ideológicas da classe média, as revistas semanais, e os telejornais das grandes redes: a censura. O motivo de tal questão ter vindo à baila é a proposta de institucionalização dos Conselhos Municipais e Estaduais de Comunicação. Jornalistas, comentaristas, analistas e palpiteiros tem se referido a esse assunto de forma rasa e redutora, o que é bastante prejudicial para a formação do juízo das pessoas sobre o que é verdadeiramente censura. </p>
<p>Para falar sobre esse assunto vou me remeter ao livro da historiadora Beatriz Kushnir, lançado em 2004, mas ainda pouco conhecido na área da comunicação. É o “Cães de Guarda – jornalista e censores, do AI-5 à Constituição de 1988”. O trabalho tem uma importância tremenda porque, com ele, Beatriz desvela o outro lado da imprensa nos anos de chumbo, tempo da ditadura brasileira. Ali, é possível caminhar pelas intrincadas veredas do processo de censura que tomou conta do país depois do Ato Institucional número 5, em 1968, e ver o quanto a categoria dos jornalistas também colaborou para que a censura se fizesse real, seja através dos profissionais que assumiram o cargo de censores ou dos que assumiram a função de polícia.</p>
<p>O livro de Kushnir talvez não seja tão conhecido porque é justamente uma chaga aberta a sangrar, mostrando que não só os donos dos grandes meios foram coniventes com as barbaridades do regime militar, mas também muitos profissionais do jornalismo colaboraram de forma ativa. Naqueles dias, a censura era concreta e cotidiana. Palavras eram proibidas de serem pronunciadas, notícias sobre fatos de interesse público como uma epidemia de malária eram proibidas, informações sobre as arbitrariedades do regime, torturas, assassinatos e desaparecimentos então, nem pensar. Havia um setor que cuidava da censura aos meios de comunicação, aos artistas e a qualquer outro sujeito que usasse a palavra. A censura era uma imposição do estado ditatorial e impedia a livre expressão das idéias. Ela permeava todas as instâncias da vida, uma vez que também as reuniões eram proibidas. Um grupo com mais de três pessoas já era considerado motim.</p>
<p>No campo do jornalismo ela se expressou com a obrigatoriedade de revisão prévia das notícias feita pelos censores que, como revela o trabalho de Beatriz, tinha entre eles um número expressivo de jornalistas. As pessoas que se prestaram a esse papel eram contratadas como funcionários públicos e tinham curso superior, desfazendo-se então a idéia corrente de que os censores eram criaturas ignorantes e incapazes. Não o eram. No mais das vezes chegavam a ser “treinados” nas universidades, que ofereciam cursos sobre como censurar. O governo investiu muitos recursos neste tipo de capacitação. Vários dos censores foram entrevistados por Beatriz e a maioria tinha consolidada a certeza de que estava realmente ajudando a manter a moral e os bons costumes. </p>
<p>O livro de Beatriz também desvela como a censura explícita e realizada diretamente pelos funcionários públicos vai se transformando em autocensura. Os donos dos grandes jornais se mostravam incomodados pela intromissão governamental, mas não era muito em relação ao conteúdo noticioso, uma vez que a maioria dos empresários da comunicação apoiou o golpe e conspirava das mesmas idéias. Houve uma certa rusga, mas logo tudo foi se acomodando, e tanto, que os grandes jornais contratavam censores, aposentados ou não, para fazerem a pré-triagem. Ou seja, eles eram pagos pelo jornal para adequar as notícias ao gosto dos censores, para impedir que os jornais sofressem atrasos ou cortes. Isso foi gestando uma cultura de autocensura nos jornalistas, que acabaram incorporando a idéia de que certas coisas, temas, palavras e assuntos eram proibidos. Tudo se ajustou. A TV Globo, conta Beatriz, teve um funcionário deste tipo até os anos 90, ou seja, sobreviveu ao próprio regime militar.</p>
<p>Informações desta natureza dão conta do caráter conservador do jornalismo de massa brasileiro, ficando para a resistência – pequena, alternativa e quase ineficaz – o território do jornalismo crítico. A coisa ficou tão contaminada nas grandes redações que, no início dos anos 70, os jornalistas contratados para noticiar a vida, distorcida pelas lentes da censura, eram também policiais. Ou seja, desfaziam-se os limites da repressão e da notícia. Só era noticiado aquilo que interessava ao regime e os jornalistas eram eles mesmos os cães de guarda. Arrepiante relato.</p>
<p>A herança policialesca</p>
<p>Não foi sem razão que esta forma de autocensura acabou se irradiado pelos demais meios de comunicação. No geral, os donos da imprensa nacional compõem uma meia dúzia de famílias que, de forma capilar, acabam se reproduzindo em todos os estados da federação. Em cada um deles se pode observar o monopólio de um determinado grupo, que tem ligações muito próximas dos “jornalões” e TVs do eixo Rio-São Paulo. E, como os donos são sempre parte das elites locais, a forma de enxergar o mundo passa pelas lentes conservadoras e muitas vezes oligarcas. </p>
<p>Quando a ditadura militar terminou, o processo de censura estava consolidado. Mesmo com a volta da chamada democracia, nos veículos de comunicação os temas proibidos pelos militares continuavam proibidos. Basta lembrar a cobertura dos fatos que envolviam o MST. Ainda na metade dos anos 90, falar de sem-terra era aberração. E, quando estes temas puderam ser mostrados, a faceta policialesca do jornalismo seguiu de dentes arreganhados. Gente em luta logo era enquadrada nas caixinhas de “bandidos”, “baderneiros”, “invasores” e, agora, em pleno século XXI, “terroristas”. </p>
<p>Isso mostra que o terrível momento da censura e toda a sua organização institucional e empresarial, tão bem narrados por Beatriz Kushnir, ainda não acabou. Se assim fosse por que teríamos as matérias da Veja? Ou os editoriais raivosos do Jornal Nacional? Por que causa tanto medo à elite que domina os meios de comunicação um Conselho de Comunicação que junte movimentos sociais, sindicatos e gente do povo? Por que a idéia de ter gente “comum” discutindo a comunicação é apresentada como a possibilidade da censura? Por que regular a atividade de comunicação está sendo chamada de censura? </p>
<p>Na verdade, toda essa algaravia de que o Conselho vai trazer a censura é o exercício da má-fé dos mesmos de sempre, os que, inclusive, sustentaram todo o processo de censura nos anos de chumbo. A chamada “imprensa livre” não quer controle, não quer ninguém metendo o bedelho na sua extração de mais-valia ideológica, como bem já analisou o pensador venezuelano Ludovico Silva. A proposta do movimento social organizado não é a da censura. Não é esconder temas, proibir palavras, impedir que a vida real se expresse nos meios. Pelo contrário, o que foi construído pelos movimentos ao longo desta infindável transição para a democracia é a proposta de controle social, algo absolutamente natural num espaço que se diz democrático. As gentes têm sim o direito de opinar sobre o que sai na TV e no rádio. Estes setores são concessões públicas e a sede do poder é o povo. As pessoas têm sim o direito de estudar, discutir e deliberar sobre a programação e os horários de exibição de determinados conteúdos. Isso não é censura. Censura é o que os donos da maioria dos meios fazem hoje ao ocultar fatos, ao não contextualizar os acontecimentos, ao obscurecer a verdade. Isso é censura! O exercício do poder de veto de uma elite, dona dos meios. </p>
<p>Por isso que num momento como esse, de profunda desinformação provocada pelos mesmos meios, seria bem importante a leitura do livro de Beatriz Kushnir. Porque ela dá nome e sobrenome aos donos dos meios e aos jornalistas que colaboraram com a ditadura e com a censura. Porque mostra que ser jornalista não significa, em última instância, ser crítico. Não o era, naqueles dias, com grande parte dos jornalistas formados à facão, nas redações e na vida, e continua assim hoje, com os jornalistas formados em cursos na maioria medíocres e colaboracionistas em igual medida, articulados mais com os empresários do que com os trabalhadores.</p>
<p>Beatriz desvela esse universo desconhecido do período da ditadura militar que vai de 68 a 88 (quando da Constituinte), e isso é bom, porque, afinal, a imprensa só fala bem de si mesma, e os jornalistas críticos não têm onde escrever. Então, estas histórias muitas vezes só podem ser contadas assim, quando são objetos de dissertações ou teses. No caso da Beatriz avançou, virou livro e está aí para ser devorado.</p>
<p>Na história, o jornalismo sempre serviu às elites</p>
<p>É claro que um trabalho de gênese acadêmica tem suas limitações. Ele precisa de recortes, é o que pede a academia, tão pouco afeita a totalizações. Nesse caso, da discussão do jornalismo colaboracionista em tempos da ditadura militar, faltou um pouco da história do próprio jornalismo. Porque se a gente mergulha nessa história vai perceber que o papel da imprensa não é, nem nunca foi fiscalizar o poder. De que a imprensa não é, nem nunca foi um “quarto” poder. Ela é braço forte do poder instituído pelos poderosos, pelas elites.</p>
<p>O jornalismo como profissão, como espaço de divulgação diária de notícias sobre o mundo, nasceu com o capitalismo. Não que não houvesse jornalismo antes, se considerarmos jornalismo o ato de noticiar algo sobre o mundo. Os desenhos pré-históricos são notícias, as tábuas da mesopotâmia são notícias, as pedras chinesas são notícias, a bíblia, o alcorão, os vedas, a ilíada. Tudo isso são notícias. Mas o jornalismo, tal como o conhecemos hoje, como espaço da informação diária, ela própria virada em mercadoria, é cria do capitalismo. Os jornais diários são criados para o anúncio das mercadorias. Os textos são assessórios.</p>
<p>Assim, se é o capitalismo que cria o jornalismo, o que podemos esperar desta prática humana? Nada mais nada menos que ela trabalhe para a consolidação daquilo que é o próprio sistema que a engendra. Se for assim, é da natureza do jornalismo ser colaboracionista do sistema. Do status quo. Por isso, durante a ditadura iniciada em 64, assim como no Estado Novo, boa parte do jornalismo esteve a serviço do sistema. Então, o que o trabalho da Beatriz nos revela é pura e simplesmente o jornalismo sendo ele mesmo.</p>
<p>Ao longo da história do jornalismo nós vamos observar que o que sempre esteve em questão foi a liberdade de expressão dos donos do poder. As situações de crítica ou do jornalismo assumindo a frente de denúncias, desvendando maracutaias, etc, sempre foram coisas pontuais, espaço específico de alguns “jornalistas”, hereges, os fora da casinha. Pessoas, seres humanos comprometidos com uma outra visão. E também, ao longo da história podemos perceber que quando estes jornalistas tiveram poder, é porque de alguma maneira estavam ajudando seus patrões a ganharem dinheiro, ou porque estava acontecendo alguma mudança de temperatura do mundo, como por exemplo, no período da abolição.</p>
<p>E os dias atuais?</p>
<p>Vamos nos remeter ao hoje. Qual a diferença entre o jornalismo entreguista e colaboracionista dos anos de chumbo e o de hoje? Qual a diferença do jornalismo praticado pelos Frias/Caldeira naqueles dias, e o praticado pela Globo hoje, ou qualquer outro, Diário Catarinense, Record, etc??? Como eles noticiam as FARC, os fatos na Venezuela, na Bolívia, em Cuba? Como são as manchetes? Que denúncias aparecem na televisão, se não aquelas que são levantadas pelos repórteres/policiais, que sobem os morros no carro da polícia? Quem são os terroristas de hoje, apontados com nome e sobrenome na televisão? Nada mudou. É da natureza do jornalismo ser parceiro do sistema.</p>
<p>Agora, mesmo diante desta realidade e justamente porque o jornalismo é feito por pessoas, ele pode escapulir de seu leito. O jornalismo, então, pode ser crítico. Sim, pode. Assim como o direito pode ser crítico, a arquitetura, a história, a medicina. Todos os saberes podem ser críticos se as pessoas forem formadas para isso, se aprenderem a fazer uso da criticidade. Mas, como sê-lo se a escola é formatadora de uma mentalidade conservadora, se a universidade é hoje um dos espaços mais atrasados, de colonialismo mental, de reprodução do mesmo?</p>
<p>Há um autor gaucho que formulou seu pensamento mais original em Santa Catarina, na Universidade Federal: Adelmo Genro Filho. Ele criou o que chamou de “teoria marxista do jornalismo”. Também compreendeu que o jornalismo é filho dileto do poder instituído, do capitalismo, mas, igualmente percebeu que o jornalismo não é um “ente”, algo imobilizado, cristalizado. Ele é praticado por pessoas. E estas são passíveis da dialética. Portanto, o jornalismo apresenta brechas. E os jornalistas críticos podem e devem mergulhar nessas brechas, trazendo para os leitores/ouvintes/espectadores um texto que possa caminhar da singularidade do fato até a universalidade de toda a atmosfera que envolve aquele acontecimento singular. Isso tira o maniqueísmo do processo jornalístico e ele pode ser crítico em qualquer tipo de sistema. Adelmo é pouco conhecido na universidade, talvez por sua teoria ser “marxista”, o que só consolida o atraso da academia.</p>
<p>No caso da ditadura militar brasileira, foi o jornalismo alternativo que usou do expediente de ser crítico. E hoje, igualmente é o alternativo que combate o jornalismo chapa branca, que se entrega aos dominantes. Mas, já não mais apenas como o jornalismo, tal qual o conhecemos, e sim como uma proposta original, nascida das entranhas do que deveria ser, de fato, a sede do poder, ou seja: o povo organizado. É a proposta da soberania comunicacional, na qual está inserida a ideia de um conselho de comunicação democrático, onde as gentes sejam protagônicas.</p>
<p>A soberania comunicacional</p>
<p>Por isso que não trabalhamos mais com a ideia de democratização da comunicação, que era válida nos anos 90, mas que, agora, encontra seus limites. Democratizar implica em melhorar o que aí está. E não é isso que queremos. Nossa proposta é a de soberania comunicacional, algo que pressupõe o novo, o absolutamente novo. O jornalismo reinventado, o jornalismo assumido pelas gentes organizadas. Porque as pessoas sabem que o jornalismo que aí está não lhes diz respeito. Por isso foi tão difícil aos jornalistas, e eu diria que foi impossível, fazer as gentes compreenderem porque o STF devia manter a exigência do diploma para o exercício da profissão. As pessoas não se reconhecem no jornalismo dos grandes meios, não se vêem. Sabem que não os representa. E isso provocou uma profunda derrota aos trabalhadores do jornalismo, vitória para os patrões, que agora poderão explorar mais.</p>
<p>Mas, é por conta de não se reconhecerem no jornalismo oficial, dos grandes meios, que os movimentos sociais estão se apropriando das técnicas de comunicação para contar suas histórias. Querem produzir conteúdo, controlar os meios, decidir o que é importante ou não. Querem exercer a soberania. Uma grande batalha com a corporação, mas que precisa ser pensada e compreendida. A luta contra o capital pressupõe a parceria com o povo. Sem as maiorias os jornalistas que estão fora do sistema de colaboração tampouco poderão avançar.</p>
<p>Não é sem razão que o sistema de poder, a se ver ameaçado pelo povo, a verdadeira sede do poder, revê suas estratégias e as legaliza, como vimos no livro de Beatriz Kushnir “Os cães de guarda”, no qual ela mostra como a ditadura ia criando as leis que determinavam a censura, amparando “legalmente” os desmandos de um governo ilegalmente constituído. Por isso, não causa surpresa, hoje, a decisão jurídica definida pelo STF no que diz respeito à profissão do jornalismo. Os empresários temem a opinião pública bem informada, tal como já alertava George Orwell, no seu prefácio ao livro “Revolução dos Bichos”. Assim, com medo do povo informado e caminhando para a soberania, os donos dos meios inviabilizam a presença da massa crítica nas redações dos seus veículos. Desregulamentar a profissão é diminuir ainda mais a chance de qualquer pensamento crítico nos meios de comunicação de massa, porque, afinal, mesmo levando em conta a formação colonizada, sempre há a possibilidade de alguém escapar. Agora, sem lei que os ampare, sem exigência de formação, será mais fácil contar com os colaboracionistas, os que se autocensuram em nome da manutenção do emprego. Jogada de mestre.</p>
<p>Uma olhada no acórdão do STF e lá está: “os jornalistas são os que se dedicam profissionalmente ao pleno exercício da liberdade de expressão. Estão ligados e não podem ser pensados separadamente, então a regulamentação da profissão vai contra o direito inalienável de expressão”. Ora, que relações perigosas da justiça com o empresariado provocam uma fala como essa? </p>
<p>O jornalismo é uma profissão, a liberdade de expressão não depende do jornalismo. Qualquer ser humano pode escrever uma carta, pintar um muro, fazer um desenho, gritar na praça. O jornalismo é uma profissão que, por acaso, usa a palavra. Mas, agora, desregulamentado, se prestará ainda mais ao jogo obsceno na censura velada. E aí estamos de novo no mesmo mundo de 68, 69, 70. A proposta dos conselhos de comunicação, com a participação de outros setores da sociedade organizada, não garante nada, nem democratização, nem soberania. Isso pode ser visto em outros conselhos já existentes como o da saúde e o da educação. Mas é um espaço importante de organização, de compreensão. Ou seja, é espaço “perigoso”, que pode provocar esclarecimentos, que pode fazer as gentes avançarem para o desejo de soberania. Por isso esse é um tema tão atacado. As elites têm medo do povo e isso é muito bom. Não é à toa, portanto, que os dignos representantes da elite nacional falem tão mal do conselho, e se esganicem falando que eles trarão a censura. Porque, na verdade, é o contrário. O povo não trará a censura e sim o esclarecimento. E isso é coisa difícil de engolir. </p>
<p>Então, não surpreende que nas redações continuem vicejando os cães de guarda, mais do que nunca. Aos jornalistas críticos estão relegadas as margens, o alternativo. Com a diferença de que, agora, estes e as gentes, juntos, poderão avançar no rumo da soberania comunicacional, construindo com os movimentos organizados um outro tipo de estado, que não este, e uma outra forma de organizar a vida, que não a capitalista. </p>
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		<title>Democracia e Jornalismo na era digital</title>
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		<pubDate>Wed, 27 Oct 2010 21:42:26 +0000</pubDate>
		<dc:creator>revistapobresenojentas</dc:creator>
				<category><![CDATA[Ser jornalista]]></category>
		<category><![CDATA[Teoria do jornalismo]]></category>

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			<content:encoded><![CDATA[<p><strong>Por Elaine Tavares – jornalista</strong></p>
<p>O tema pomposo me seduziu e lá fui eu assistir a conferência promovida pela pós-graduação em Jornalismo na UFSC. Já na entrada um enorme banner do Diário Catarinense, jornal principal da empresa monopólica da comunicação em Santa Catarina, não me surpreendeu. Faz muito tempo que o curso da UFSC está rendido à razão empresarial, afinal, existe até uma Cátedra RBS. É de se lamentar, mas, enfim, vamos em frente. </p>
<p>A conferência do professor Silvio Waisbord, um argentino com sotaque gringo, era uma promoção da Associação Nacional de Jornais, entidade patronal que, conforme explicou o jornalista responsável pelo jornal da entidade, Carlo Müller, estava realizando um recorrido por várias capitais do país, levando estas informações às escolas porque: “nós entendemos que as escolas são os melhores espaços para a formação de jornalistas e para a reflexão do jornalismo”. A declaração do assessor da ANJ me surpreendeu pelo cinismo, afinal, a ANJ saudou a queda da obrigatoriedade do diploma assegurando, nas palavras de seu diretor Paulo Tonet Camargo, que a exigência feria o direito de livre expressão. Talvez porque falasse a estudantes, Müller preferiu a segunda parte da declaração. A ANJ diz que não é contra o diploma, mas garante que fere a liberdade de expressão. Logo&#8230; Confuso, não? Absolutamente não! Muito claro&#8230;</p>
<p>A conferência de Silvio Waisbord limitou-se a apresentar aquilo que ele considera como as três transições, nos Estados Unidos, que afetam o jornalismo mundial. Segundo ele, há mudanças na área comercial, na prática jornalística e na comunicação política. “O jornalismo está no centro de uma rede de negócios e a informação é um produto, mas isso não é qualquer negócio, precisa manter a democracia”. E, segundo ele, é nesse paradoxo que o jornalismo vem se equilibrando: ser produto para os empresários ganharem dinheiro, mas ao mesmo tempo ser o responsável pela manutenção da democracia. Em nenhum momento da fala ele explicitou de que democracia estava falando, embora se possa perceber que seja a dos Estados Unidos, a qual muitos consideram o carro chefe do “mundo livre”, mesmo que lá os cidadãos não tenham mais qualquer direito individual depois da doutrina Busch. </p>
<p>Silvio falou aos estudantes, futuros trabalhadores do jornalismo, sobre os grandes problemas vividos pelo empresariado da comunicação. Com as novas tecnologias muita coisa está mudando e as empresas já se ressentem da falta de financiamento para seus negócios. “Há uma crise na propaganda porque os anunciantes estão diversificando os veículos. Não há mais a concentração nos grandes jornais. Há novos espaços para divulgar e as empresas estão com grandes dívidas contraídas. Há ainda uma grande queda na venda dos impressos, o que tem levado as empresas a medidas de contenção”. Conforme o estudo de Sílvio, estas medidas acabam sendo as de cortar edições impressas, cortar pessoal e fazer um jornalismo mais econômico.</p>
<p>Como a conferência foi preparada para as empresas, é óbvio que o professor em nenhum momento problematizou o que deveria ser o mais importante para os futuros profissionais que o assistiam. As medidas das empresas são sempre desfavoráveis para os trabalhadores. E o que seria mesmo fazer um jornalismo mais econômico? Como ele mesmo repetiu várias vezes durante a palestra, fazer jornalismo é coisa cara. Jornalismo de análise, com profundidade e com investigação é caro, mas as empresas não podem gastar, então fazer o quê? </p>
<p>A solução que as empresas têm para o futuro do jornalismo é a tendência do nicho. Fazer publicações cada vez mais dirigidas, para um público específico. É a última fronteira da especialização. Dizer apenas o que as pessoas querem ouvir. É o fim da diversidade, da universalidade. O fim da democracia, portanto. Esta é única forma de as empresas sobreviverem. A tendência é a criação de plataformas comunicacionais com múltiplas funções. Pouca gente trabalhando, muito trabalho para cada um, produção para vários meios ao mesmo tempo. Lucro para os patrões, escravidão para os trabalhadores, mas essa parte aí não foi tocada.</p>
<p>Conforme Waisbord as empresas estadunidenses “estão lutando” contra a crise. E neste processo já se fala em formas de financiamento. Os empresários, com perdas de lucro, pensam em várias alternativas para “sobreviver”. Há várias alternativas tais como buscar fundos filantrópicos (?), criar esquemas de membros fixos, trabalhar na lógica do “micropayments” que seria a pessoa pagando pela matéria que consumir, e até mesmo subvenções estatais. Esta última o professor disse que talvez pudesse ser mais difícil porque significaria uma espécie de estatização. Mas, se for para ampliar os lucros, quem duvida? Nesse caso, elementos do “comunismo” poderiam ser bem-vindos. Já pensaram se essa solução viesse da Venezuela ou do Irã? </p>
<p>As novas tecnologias também apontam para mudanças nas práticas jornalísticas. Como hoje qualquer pessoa é um produtor de conteúdo na internet, o monopólio da produção já não pertence mais ao jornalista. “As habilidades jornalísticas estão democratizadas no jornalismo cidadão”. Mais um equívoco do professor argentino/estadunidense. O que ele chama de jornalismo cidadão é a produção de informações por parte das pessoas e dos movimentos sociais que, para nós, está mais na linha da soberania comunicacional. E isso não tira do jornalismo a capacidade de ser jornalismo, porque as pessoas que escrevem nos blogs ou em páginas pessoais não estão vendendo sua força de trabalho. Não estão, portanto, sob o domínio da empresa. Há uma tremenda incompreensão, ou má fé, nesta reflexão. A soberania comunicacional não inviabiliza o jornalismo como profissão. Assim como o jornalismo não inviabiliza a liberdade de expressão. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.</p>
<p>Para Waisbord as empresas de comunicação ainda não atentaram para as múltiplas possibilidades das novas tecnologias. “Hoje valem as velhas regras da autoridade do jornalista, há uma distância entre profissional e cidadão. Os jornalistas não têm iniciativa para realizar novas experiências. O jornalismo em profundidade é caro, não é viável. Os jornalistas precisam inventar”. Ou seja, conforme o assessor da ANJ, os jornalistas, além de estarem proporcionando mais mais-valia, aumento de horas de trabalho excedente, por conta das novas tecnologias, ainda precisam ser criativos, inventivos, apontando aos patrões novas formas de eles (patrões) ganharem mais dinheiro. Muito engenhoso isso, e o mais triste foi ver boa parte dos estudantes e professores balançando a cabeça em sinal afirmativo. </p>
<p>Finalizando, Waisbord disse que o futuro do jornalismo é de mais competitividade, não há modelos fechados embora a tendência seja a de fragmentação por grupos fechados, informação feita de iguais para iguais, nada dissonante. Ele concorda que isso pode não facilitar o diálogo, não ser bom para a democracia, mas assegura que é a tendência. Também acredita que o jornalismo deve oferecer mais análise, mais profundidade. E como isso é caro, não conseguiu apontar como fazer isso. Talvez queira dizer que isso fique por conta dos jornalistas “criativos”.</p>
<p>Carlos Müller, da ANJ, acrescentou que há diferenças bem grandes entre os Estados Unidos e o Brasil. “Lá eles tem a primeira emenda, que garante liberdade de imprensa. Aqui já tivemos oito Constituições no mesmo período e seguimos lutando. Lá nos EUA as empresas familiares se abriram para o mercado, aqui ainda não. A vantagem que temos em relação aos EUA é que lá as cadeias de jornais são cada vez mais parecidas e aqui não, temos imprensa regional”. Ora, o assessor da ANJ não deve conhecer seu próprio país. O que ele chama de “imprensa regional” são monopólios regionais, praticamente clones do grande monopólio nacional, reproduzindo a mesma lógica e a mesma proposta de superexploração dos trabalhadores, e aumento dos lucros, tal e qual faz o patrocinador do evento, a RBS. </p>
<p>Enfim, a conversa do jornalista Sílvio Waisbord, trazendo para os estudantes os grandes problemas do empresariado do jornalismo estadunidense só reforça aquilo que já temos muito claro. O jornalismo ensinado na maioria das universidades segue cativo de mentes colonizadas, incapazes de pensar o jornalismo desde os problemas reais daqueles que serão os futuros trabalhadores. A pedagogia do “empreendedorismo” cria no aluno a certeza de que eles são parte desta “família” que são as empresas, que eles precisam ficar solidários com os problemas de rentabilidade dos patrões, que devem encontrar saídas para melhorar os lucros, que precisam ser flexíveis, maleáveis, multifuncionais, capazes de filmar, escrever, postar no blog, fotografar, dirigir, editar, diagramar, e tudo isso nas cinco horas de sua jornadas. Patrocinadas pelas RBS da vida e pela Associação Nacional de Jornais, as atividades acadêmicas oferecem aos estudantes de jornalismo a doce possibilidade do cabresto, da roda de mó do moinho do capital, a escravidão. </p>
<p>Já o pensamento herege, anti-sistêmico, anticapitalista e descolonizado, é rechaçado e ridicularizado. Ou seja, não se dá aos estudantes o direito de sequer conhecer que a moeda do jornalismo tem outros lados que não só o do patrão. Que o diga a comunicação ostensiva subliminar do evento do jornalismo da UFSC, concretizada nos dois imensos banners do Diário Catarinense, a casa grande do jornalismo local.</p>
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