Falta, ao clima, um assessor de imprensa. Veja em:
http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4499&alterarHomeAtual=1
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Míriam Santini de Abreu
O jornalismo que desaloja é o jornalismo da reportagem. Tenho lido textos sobre a prática do jornalismo desde que foi publicado o acórdão que selou o fim da exigência do diploma nessa área para o exercício da profissão. Na quarta, dia 18, falou-se sobre o assunto em um seminário do qual participei como palestrante promovido pelo Instituto do Meio Ambiente da Bahia. Houve quem defendesse e quem reprovasse a decisão, com argumentos mais ou menos consistentes. Mas acabo de ler uma reportagem no Le Monde Diplomatique de novembro e mais uma vez percebo que a reportagem, que cada vez mais perde espaço para noticiazinhas nos jornais e revistas, é o que distingue o trabalho jornalístico de qualquer outra atividade de escrita que se proponha a interpretar o mundo. No acórdão do STF está escrito que “o jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de forma separada”. Ora, liberdade de expressão é direito humano fundamental, e não atividade. E o jornalismo tanto é uma profissão quanto uma forma de interpretação da realidade. Essa forma de interpretação pressupõe teoria e prática, e a prática que expressa com mais riqueza interpretativa, narrativa, a realidade, do ponto de vista jornalístico, é a reportagem. E o repórter, de todas as funções que um jornalista pode exercer, por sua vez é o que mais traz em si o caldo fumegante da prática jornalística. Estão a se crer jornalistas todos os que agora talvez possam verter seus textos nas páginas dos jornais e revistas. Antes já podiam… Estão a escrever cartas, crônicas, artigos, resenhas, talvez até pequenas notícias. Mas, diabos, quero ver se escrevem reportagens! Porque basta o domínio da língua portuguesa e um pensar raso, mediano ou profundo sobre o mundo para se sentar na frente do computador e dar pitacos sobre o governo, a crise, o mais recente lançamento literário, quem deu para quem no mundo dos ricos e famosos, o apagão, a Copa. Mas reportagem é outra coisa! A que li no Le Monde Diplomatique fala sobre as “maquiladoras” no México, nome das fábricas que recebem peças, montam os produtos e os reenviam aos Estados Unidos. Fosse o texto escrito por alguém da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, teriam escrito algo mais ou menos denso, mais ou menos crítico, alinhavando estatísticas, percentuais, algumas frases feitas, um histórico sobre como as “maquiladoras” se instalaram no país. Se o escrevente fosse um cabeça-de-planilha, como diz o Nassif, certamente elogiaria a vitalidade do setor para aquele país e em como emprega milhares de pessoas. Um escrevente com olhar menos viciado pela balela neoliberal falaria sobre a forma como os trabalhadores são tratados, a miséria que recebem, o impacto ambiental e a falta de compromisso com condições dignas de trabalho. Mas tudo com base em um discurso universal, válido, respeitadas as diferenças, para situações mais ou menos semelhantes no sórdido mundo das corporações. E para escrever de um modo ou de outro, bastaria dar uma boa varredura na internet ou, no caso de escrevente mais sério, ter ido in loco verificar o que lá se passa. Escrever sobre isso seria emitir uma opinião sobre o assunto, consolidando a liberdade de expressão, e sem precisar levantar da cadeira! Mas, caralho!, a jornalista Anne Vigna, a repórter Anne Vigna, foi até lá fazer reportagem. E como é isso, perguntam? A-ha! A repórter leu sobre o assunto, foi até o México, esteve em “maquiladoras”, ouviu trabalhadores, sindicalistas, representantes dos empresários e do governo, especialistas da Universidade. Apresentou estatísticas. Descreveu ambientes, situações e pessoas. Sabemos, por ela, que uma operária foi suspensa por dois dias porque fez uma peça ruim entre as 700 que produz em um dia. Ela recebe o equivalente a 98 reais por semana. Também sabemos que a fila de trabalhadores na frente das “maquiladoras” começa a se formar perto das cinco da manhã, e as pessoas temem reclamar do que quer que seja por medo de não conseguir uma das vagas . A repórter conversou com operários sobre as graves doenças que desenvolvem os que trabalham com chumbo, elemento que vai nas baterias de equipamentos eletrônicos. Trabalhadores que não podem falar ou ir ao banheiro durante o expediente, e que passam até 10 horas seguidas em pé. As 8 mil toneladas de chumbo enterradas sob uma capa de concreto para não continuar a poluir a natureza. Ah, a pujante economia proporcionada pelo acordo que o México fez com os Estados Unidos… Anne Vigna em nenhum momento expressa sua opinião sobre o que vê e ouve. Mas toda a forma de construir a reportagem – como fazem os grandes repórteres – deixa escorrer do texto uma lava. Uma lava que desce por canais formados por domínio das técnicas narrativas, por capacidade descritiva, inúmeras informações precisas e – sim, isso é evidente no texto – um amor profundo pelo ser humano que sofre. E o que Anne faz ao final do texto é perfeito, porque ela cede a uma das operárias que entrevistou a frase que conclui a reportagem. E essa frase aponta o que diz o geógrafo Milton Santos, para quem os portadores do futuro são os “homens lentos”, os empobrecidos. O sumo do pensamento de Milton está naquela frase final, dita por uma operária demitida depois de ter sido sugada por 25 anos e não ter recebido seus direitos trabalhistas. Essa lava que Anne deixa jorrar de sua reportagem é o jornalismo que desaloja. Deixemos que esse povo da Universidade, do Mundo dos Negócios, do Mundo dos Profissionais Liberais, do Mundo dos Consultores, fale sua verdade nos jornais e revistas. Mas Reportagem, a forma por excelência de o Jornalismo interpretar o mundo, é coisa para o Mundo dos Repórteres.
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Elaine Tavares, de Florianópolis
Quando o mundo feudal europeu caiu, após mais de mil anos de existência, não foi por acaso. Esse processo foi fruto de uma profunda revolução levada pela classe burguesa em ascensão. Mais tarde, essa mesma classe trouxe à luz outros sistemas de organizar a vida – o mercantilismo e o capitalismo – que, com as invasões de território pós 1492, foram trazidos também para o que hoje chamamos de América Latina (ou Abya Yala), nosso espaço geográfico de existência. O capitalismo, depois de mais uma revolução tecnológica, nominada como revolução industrial, cresceu, ficou forte e passou por diversas crises, mas sempre sobrevivendo. Hoje, ele se expressa como imperialismo, que é o tempo em que a livre concorrência (proposta do capitalismo mercantilista) é substituída pelo monopólio.
Leia artigo na íntegra no sítio: http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1154
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Celso Vicenzi
“Meninos, eu vi!” Menos do que o índio timbira no épico I-Juca Pirama, de Gonçalves Dias, mas eu vi. Juro que vi. Vi e ouvi. E não vou esquecer mais esta pérola da mídia televisiva. E não foi em uma emissora de quinta categoria, não. Era a principal do país. Data: 18 de setembro de 2009, pela manhã. A apresentadora entra ao vivo, durante a programação, para anunciar que o vice-presidente da República, José Alencar, fora internado às pressas na noite anterior, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. Como se sabe, aos 77 anos, José Alencar trava uma batalha incansável contra um câncer de abdômen há mais de uma década (procurei no Google e alguns jornalistas falam em 12 outros em 15 anos; pelo menos não havia discordância sobre o número de cirurgias: 15 no total). Nessa não menos épica resistência às frequentes internações para tratamento, Alencar tem demonstrado uma obstinação admirável e um bom humor incomum para quem padece dessa enfermidade. Pois bem, na noite de 17 de setembro, o vice-presidente, mais uma vez, sente mal-estar e é prontamente transferido de Brasília para São Paulo. O repórter da Globo, já o aguardava na entrada do hospital e tão logo Alencar desembarcou, partiu em sua direção com a seguinte pergunta: “O senhor está se sentindo bem?”
Sim, juro, foi isso que ele perguntou depois de uma década de luta contra um câncer, 15 cirurgias e sabe-se lá quantas internações. Estou pasmo até agora. O repórter teve tempo suficiente para escolher a pergunta. E eis que ele não titubeia: “O senhor está se sentindo bem?” Alencar foi novamente um gentleman e alinhavou algumas considerações triviais, tentando esboçar otimismo e, claro, desvencilhando-se o mais rápido daquele repórter. Mas poderia ter sido mais irônico: “Estou ótimo! Estava em Brasília até há pouco, sem fazer nada e pensei: por que não fazer uma visita aos médicos do Sírio-Libanês?”
Corta para Santa Catarina. Escolha o menu: pode ser uma daquelas enchentes arrasadoras, soterramento de casas ou vendavais e ciclones que devastam tudo por onde passam. Perda total e mortes. Já perdi a conta de quantas vezes ouvi repórteres, microfone em punho, invadindo espaços privados – sem pedir licença – e nestes cenários onde o silêncio fala mais alto, encaixarem a pergunta: “A senhora está triste?” Ou então: “Como o senhor está se sentindo?”. Perguntas endereçadas, não raro, a cidadãos e cidadãs que perderam casa, móveis, tudo – e choram a morte de familiares.
Recentemente, uma das perguntas foi: “E a senhora não está triste com tudo isso?” Para sorte do repórter, que merecia ouvir impropérios, sabiamente respondeu: “Não, estou feliz porque estou viva”.
Saber perguntar é o que há de mais importante na atividade jornalística. Sem boas perguntas não se extrai boas histórias, não se constroem bons textos, bons títulos. Não se chega à apuração dos fatos, não se compreende o que está acontecendo, não se desmascara o mentiroso e, sobretudo, permite vida fácil a quem se especializou em enganar a opinião pública. Perguntas precisam incomodar os poderosos, encurralar os falsários, revelar aquilo que se esconde e que é de interesse público. Não por um simples exercício de contestação, mas porque a essência dos fatos não costuma vir à tona com facilidade. Há muitas técnicas para se obter boas respostas. Mas todas dependerão de boas perguntas. E se o jornalista não sabe o que busca, dificilmente encontrará. Se só pergunta por perguntar, despretensiosamente, superficialmente, estará a quilômetros de distância da competência que se exige para exercer a função. Porque com ou sem diploma, jornalistas são o oxigênio das sociedades democráticas.
Há diferentes tipos e técnicas de entrevista. O bom entrevistador saberá escolher a abordagem mais adequada para cada tipo de entrevista e de entrevistado. Por isso, é fundamental a preparação, que começa com uma boa formação profissional e leituras, muitas leituras sobre todos os principais campos do conhecimento humano. Não saberá perguntar quem não se interroga sobre o que acontece no mundo. Se não investiga as razões de algo ser como é, ou aparenta ser. Teoria, técnica, intuição, delicadeza, conhecimento do assunto, sensibilidade, argumentação, clareza, improviso, criatividade. Tudo pode ser usado para obter boas respostas.
Jornalista é alguém que precisa fazer perguntas para tentar compreender os fatos, desvendar a realidade, decifrar o ser humano, entender os mecanismos que desencadeiam tragédias que poderiam ter sido evitadas e, principalmente, saber quais interesses estão em disputa e quem são ou serão os beneficiados. Ou não é um jornalista, mas um segurador de microfone. Um anotador de recados.
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Míriam Santini de Abreu
Palavras podem encantar e brutalizar. Podem tornar banal o sentimento mais arrebatador; podem cobrir de enlevo o fato mais casual. Li “Passeio ao farol”, de Virginia Woolf, e me lembro ainda agora daquela escrita correndo como fogo líquido nas minhas veias. As mil e tantas páginas de “José e seus irmãos”, de Thomas Mann, atravessei sedenta, devoradora. Eu sorria ao observar o livro fechado e pensar nos capítulos finais, aos quais eu não me rendia, antevendo o prazer dolorido do parágrafo final, da frase derradeira. História tão antiga, bíblica, sabida, mas contada por Mann como se, naquela narrativa, se escondesse o mais indevassado dos mistérios humanos. E por ter estendido as mãos a Mann, a quantas outras leituras ele me levou!
E os jornalistas, ah, o que são esses jornalistas que sabem deixar a letra rolar, enroscar-se com outra, deslizar o sentido, confundir… como disse mesmo Elaine Tavares… desalojar! Ai, um jornalismo que desaloja… que faz um ponderado sentir-se sem chão, um insolente tremer, um sábio perder a compreensão.
Oriana Fallaci, que neste dia 15 faz três anos que partiu, também me desalojava. Era à procura dela que eu me estendia sobre as mesas da hemeroteca da Unisinos, em São Leopoldo, deslizando os dedos sobre os velhos exemplares da revista Realidade, que publicava textos da atrevida italiana. Na época da faculdade não havia a “Estante Virtual”, e andei meses atrás de um livro dela, “Um homem”. Encontrei-o sem querer numa banca na Feira do Livro em Porto Alegre. Puro Serendipity. Como jornalista e escritora, Fallaci é deleite de fera.
Marcos Faerman também me desaloja. Revivem indefinidamente as pessoas que ele entrevistou para reportagens que não canso de ler. Os trindadeiros de Paraty que perderam as terras. Os homens e as águas envenenadas de Alagados. Kosak, o europeu enfeitiçado pelas sombras mortas dos índios xetás.
Eni Orlandi, em seus livros, costuma dizer que somos condenados, desde que nascemos, a interpretar. Precisamos dar um sentido ao mundo, dar um sentido às coisas que acontecem nele.
Assim, pode-se dizer que o jornalista é uma espécie de interpretador profissional, porque seu trabalho é produzir discursos sobre o mundo e fazê-los circular em diferentes meios.
Todos os dias, lemos textos e ouvimos jornalistas que nos trazem notícias de fatos próximos e distantes, e essas notícias são interpretações. Por isso é impossível falar em jornalismo isento.
Ficar isento é renunciar à interpretação. Isso é uma impossibilidade para o ser humano, porque parar de interpretar significa deixar de perceber o mundo, significa morrer.
Quando falamos de um jornalismo feito a partir do Brasil, da América Latina, renunciar à interpretação, ser isento, significa não só a morte individual, mas também a morte coletiva. E por quê?
Porque há, disponíveis, milhões de discursos sobre o mundo, mas poucos são capazes de ajudar a maioria das pessoas a compreendê-lo. E como mudar algo se não o compreendermos?
A questão é que abandonar a idéia da isenção também nos faz sair de uma certa zona de conforto, porque somos obrigados, diante dos fatos, diante da realidade, a fazer escolhas, como seres humanos e como jornalistas. “Ouça sempre o outro lado”, nos dizem. Mas há vários outros lados, há múltiplas versões. Qual levar em conta? A partir da qual, das quais, interpretar?
Essa pergunta transpira em cada pauta, em cada reportagem. E a resposta define o caminho jornalístico de cada um, e por isso a importância da leitura, da análise, da observação das coisas e das pessoas.
Nada disso impede as dúvidas, as inquietações terríveis, a sensação de desamparo. Também, para esses momentos, é preciso buscar respostas.
A minha é a certeza de saber que escolhemos uma profissão privilegiada. Todos os dias, saímos de casa para interpretar o mundo, por força de ser humano e de ser jornalista. E todos os dias eu saio de casa sabendo disso, mas sabendo de um pouco mais:
Como dizia Paulo Freire, tudo na História é possibilidade, nada está determinado. Então, ser jornalista é sair de casa sabendo que o nosso trabalho tem um propósito: é mostrar essas possibilidades que nascem, que se constroem dia a dia em todos os lugares nesse tempo que nos é dado viver.
E do que nos serviria falar sobre essas possibilidades de construção da História? Bem, mais uma vez só posso dar a minha resposta, e para ela uso uma frase de Dom Hélder Câmara, que costumava dizer: “Deus deu ao ser humano o poder e a responsabilidade de não se conformar com o sofrimento e com a dor do inocente, mas de combater o mal e a injustiça. Esta é a tarefa de todos nós”.
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Li Travassos*, de Florianópolis
Depois de ter assistido a novela “Duas caras”, cujo final (e boa parte) odiei, me fiz uma promessa de não assistir novela tão cedo. Muito bem, resisti bravamente, apesar de achar que, como há algum tempo estou envolvida com a questão da democratização da comunicação, tenho que saber o que a maioria esmagadora dos brasileiros (milhões de pessoas), anda vendo e absorvendo via TV Globo. Pois bem, no último verão, fui passar uns dias na praia, nada de TV a cabo, e eu assisti alguns capítulos de “Caminho das Índias”. Voltei para casa, vez ou outra via a novela, até que passei a ver mesmo, que eu vicio com facilidade em qualquer coisa.
E, claro, esta novela me deu muiiiiiiiiiiiita raiva. Em primeiro lugar, porque eu, que adoro aprender, me sinto super insegura de registrar o que quer que seja sobre a cultura na Índia mostrado nesta novela. Virava e mexia, alguém fazia um comentário dizendo que o que a novela mostrava sobre isso não tem nada a ver. Daí eu não sei se não tem nada a ver nos dias de hoje, ou se nunca teve. Enfim, saio desta mais burra do que entrei sobre a cultura indiana.
Por outro lado, Glória Perez sempre tenta, em suas obras, ajudar em alguma coisa que ela considera importante socialmente. Desta vez, ela escolheu a questão da saúde mental. O problema é que ela nunca sabe o que quer, em que acredita, e vai mudando de idéia no meio do caminho, sem nenhum respeito ao telespectador. E eu penso que problema maior ainda é o fato de que a maioria das pessoas que assistem novelas realmente não percebem estas mudanças de idéia. Mas vamos dar alguns exemplos.
Quando a doença mental do personagem Tarso (feito por Bruno Gagliasso, simplesmente di-vi-no) começou a aparecer, ele ouvia vozes. Daí a autora da novela mistura esta situação com a do personagem que é um falso guru, e que diz que o caso do Tarso é comunicação de espíritos e, pior, que é o espírito do tio morto (que está vivinho da silva). Provavelmente sob protestos dos kardecistas, que devem ter pulado no pescoço dela, pois realmente acreditam que os espíritos podem se manifestar desta maneira, e até deixar uma pessoa louca, ela acabou rapidinho com esta história. Então tá, o garoto está esquizofrênico mesmo. Daí, tem a clínica do Dr. Castanho. Que tem gente internada, morando lá. Então, provavelmente desta vez sob protestos dos militantes do movimento anti-manicomial, a autora, de uma hora para outra, acaba com os internamentos na dita clínica, e quando Tarso pede para ficar um tempo lá, não pode, porque o espaço só funciona durante o dia.
Depois, Tarso começa a ter delírios paranóicos, e tenta matar duas pessoas que ele acredita que estão conspirando contra ele. Num dos casos, o sujeito se salva por muito pouco. Sabe Deus quem pulou no pescoço dela então, mas ela começa imediatamente a colocar o psiquiatra dizendo que o louco não é perigoso, que o esquizofrênico não é violento, e blá, blá. E Tarso nunca mais ameaça ninguém. Para completar, a mãe do garoto assume a responsabilidade pela tentativa de assassinato cometida pelo filho, e até agora não foi a julgamento. Quem sabe no próximo capítulo. Opa, não tem… talvez então na próxima novela.
Ainda em torno da esquizofrenia, temos uma família pobre, em que uma mulher sustenta dois filhos, um deles esquizofrênico, que apronta todas, e ela acha graça 80 por cento do tempo, independentemente das reclamações do outro filho, que diz que ela só é mãe do esquizofrênico, que não é mãe dele, que não o protege do irmão, que não dá atenção a ele, e ela só faz responder que ele tem que agradecer a Deus por ser saudável, que é um ciumento, e ri da cara dele. Ponto. Nenhuma discussão, em nenhum dos infindáveis capítulos da novela, sobre a situação dos irmãos de pessoas doentes mentais, do que elas sentem. Nada. Nem mesmo quando o “irmão saudável” vai conversar com o psiquiatra, consegue algum tipo de apoio real. No último capítulo, a mãe diz que ele samba melhor que o irmão, o personagem esquizofrênico, que foi feito por um ator que me parece ser um dançarino profissional, pois dança divinamente. Ou seja: o elogio é completamente inverossímil. A autora da novela mostra o problema dos sentimentos de quem tem um irmão doente, mas não há discussão. E cada um se coloca no lugar de quem quer. Não que eu ache que a coisa tem que ser dada pronta, mas é preciso um mínimo de reflexão sobre a M que se joga no ventilador. Ou não?
Daí, passando para o assunto que parece predileto à autora neste momento, temos a questão dos psicopatas. Eu sei que a autora baseou toda a fala do seu personagem que é psiquiatra (Stênio Garcia, maravilhoso como sempre) na obra de alguém que tem um estudo sobre este distúrbio de personalidade. Mas eu tenho que discordar de muita coisa nas posições desta pessoa. E acho que a própria Glória, intuitivamente, também discorda. Senão, vejamos. A novela, para variar, como toda novela, é recheada de gente mau-caráter. Ora, para quem não sabe, “mau-caratismo” é, de certa foram, o mesmo que psicopatia.
Mas o que é a psicopatia? De acordo com várias linhas da psicologia, todos nós temos um determinado tipo básico de caráter (que não tem nada a ver com bom ou mau-caráter), que é um conjunto de características de personalidade. Exemplos de tipo de caráter: histérico, obsessivo compulsivo, oral, etc. E o tipo de caráter psicopático seria um destes. Veja que a classificação em tipos de caráter não tem a função de rotular ninguém, apenas de ajudar o psicoterapeuta a ter um “caminho” a seguir no processo terapêutico. Para as pessoas comuns, o tipo de caráter do outro não interessa. Até porque nosso caráter não é puro, e sim misturado com um tanto deste ou daquele, o que nos torna únicos. Mas este “caminho” só interessa ao psicoterapeuta porque permite voltar ao passado do paciente. Ou seja: todo tipo de caráter tem sua origem na educação, nas vivências familiares, na história do indivíduo.
Na visão da pessoa cuja teoria é usada na novela, o psicopata já nasce assim. Pelo que entendi, os esquizofrênicos também. Ora, esta visão de que as pessoas nascem deste ou daquele jeito é uma ótima maneira de desresponsabilizar a sociedade, representada pela família, de toda e qualquer influência sobre as pessoas. E não tem base científica nenhuma. Tanto as linhas da psicologia que derivam, direta ou indiretamente da psicanálise, como aquelas que derivam, direta ou indiretamente, do behaviorismo, afirmam que a vivência da pessoa, a maneira como ela é tratada na família (e em outros espaços) na infância, determinará seu comportamento na vida adulta. A diferença é que a psicanálise é mais subjetiva, leva mais em conta a maneira como a pessoa sente suas vivências, e o behaviorismo (ou terapia cognitivo-comportamental) é mais objetivo, considera mais diretamente a questão estímulo-resposta.
Se acreditamos que as pessoas já nascem prontas, podemos deixar de nos preocupar, por exemplo, com o incentivo absurdo ao consumismo em nossa sociedade, que faz com que as pessoas desejem o que não podem ter e, por vezes, de tanta frustração, vão buscar uma maneira torta de conseguir o que querem. Além disso, uma teoria que pressupõe que a pessoa “já nasce assim”, sem que isto esteja ligado a fatores genéticos (como na síndrome de Down), nem a problemas ocorridos na hora do parto (como na paralisia cerebral), não pode se propor científica. Teria que estar baseada na crença religiosa na reencarnação e, assim mesmo, de uma maneira tão radical que não permitisse a evolução da pessoa durante uma vida inteira. A pessoa não só nasceria psicopata, mas ela morreria psicopata também. Para mudar, só mesmo na próxima encarnação…
Epa! Mas você não ouviu esta idéia antes? Não é assim, exatamente assim, que se definem (ou definiam) as castas na Índia? Não é da mesma forma que se justificava a falta de dignidade na vida dos dalits? Que se justificava que a eles fossem entregues os trabalhos que ninguém queria, os considerados indignos, e eles não poderiam almejar a nada além disso? A Igreja Católica, tempos atrás, afirmava que as pessoas negras não tinham alma. Com isso, facilitavam a vida dos “donos” de escravos, que podiam dispor da vida de seus “pertences”, inclusive com a morte. Muitas religiões ainda colocam a mulher em um lugar secundário, inferiores em tudo aos homens, facilitando com isso a perpetuação da dominação masculina. Tanto a religião quanto a ciência só são úteis ao ser humano quando buscam a inclusão, não a exclusão. Quando buscam a solução, não o conformismo. Quando combatem o preconceito, não quando o incentivam.
O comportamento psicopático em uma pessoa é o resultado de uma infância onde não havia os modelos positivos necessários para a introjeção de limites. Segundo a psicanálise, através dos limites impostos pelos pais, a criança acaba desenvolvendo o “superego”, que seria uma forma de introjetar (pôr para dentro) as leis que estruturam a sociedade em que ela vive. Com isso a pessoa desenvolve a potencialidade para sentimentos de culpa, responsabilidade, compaixão, remorso…
Ainda sob a perspectiva psicanalítica, a “primeira lei” é a lei da proibição do incesto. A filha não pode fazer sexo com o pai, o filho não pode fazer sexo com a mãe. Mas e que acontece nas famílias onde as crianças são abusadas sexualmente? Onde o pai, que deveria ser o transmissor da lei, é o primeiro a quebrá-la, abusando da própria filha? E não vamos nos prender à questão do abuso, mas vamos ampliar para a sedução. Que acontece quando a criança se sente seduzida (manipulada) de forma a que o adulto consiga dela o que quer? Acontece que, ao invés de introjetar um superego, a criança vai é desenvolver a crença na idéia de que tudo é permitido, desde que ela consiga “se dar bem”. O negócio é levar vantagem em tudo, certo? E filho de psicopata, psicopata é. Sob esta perspectiva, Ivone, o monstrinho psicopático número 1 da novela sobre a qual falamos, não poderia ter tido uma família de comercial de margarina, com uma mãe dedicada a transmitir os melhores valores aos filhos (como nos conta a autora da novela) e ainda assim ser como é.
Então o filho do psicopata está fadado a ser psicopata também? Assim como o filho de um dalit será um dalit? Não necessariamente. Depende de uma série de fatores, como: quem abusou da criança, que idade ela tinha na ocasião, como agiam as outras figuras parentais, as outras pessoas adultas na vida da criança, etc., etc. É um tanto subjetivo. E psicopata não tem sentimentos? Tem sim. Psicopata sente raiva, frustração, ódio, inveja, insegurança, paixão, desejo, prazer… Só não sente culpa, nem medo de ser punido, pois quem não se sente culpado não tem medo de ser punido, certo? E claro, vai daí que não sente remorso, arrependimento, pois tudo isso é decorrência da culpa… Compaixão, capacidade de se colocar no lugar do outro? Bueno, nisso nem quem não é psicopata costuma ser muito bom…
Se buscarmos, por outro lado, uma compreensão cognitivo comportamental do assunto, teremos que a criança, de alguma maneira, foi reforçada em seu comportamento psicopático desde a infância. Mas não de maneira tão redondinha como acontecia na novela na família de César, Ilana e seu filho Zeca. Peço atenção para o fato de que esta família é uma maneira totalmente diferente de colocar a origem da psicopatia do que o discurso do psiquiatra de que o psicopata já nasce assim, blá, blá (confirmado na fala da mãe de Ivone). Só para exemplificar, mais uma vez, que Glória Peres não sabe muito bem que posição defender em suas novelas.
Voltemos para a família do Zeca. César e Ilana são psicopatas típicos, pessoas sem valores, sem limites, sem ética. Pessoas assim não amam profundamente nem dentro da própria família. Uma mãe psicopata vai seduzir o filho em seu benefício, vai extorquir o marido em seu benefício (não em benefício do filho), vai manipular, enganar, em todo lugar e momento, inclusive no seu local de trabalho (onde Ilana parecia ser bem correta). O pai psicopata vai competir com o filho. Se achar que a esposa gosta mais do filho que dele, vai tentar destruir o filho. Vai gastar seu dinheiro prioritariamente consigo mesmo, enfim, não vai ser este paizão que César é para Zeca, nem aqui, nem na Índia, nem na China. Lembrou do pai do Michael Jackson? Por que será… Mas estes pais podem, de alguma forma, demonstrar um resquício de respeito pelo filho quando é ele que manipula, que engana, que prejudica alguém (desde que faça isso com os outros). Dificilmente a coisa será tão declarada como “Aí meu filho, mandou bem!”. Mas a criança vai perceber que isso é o esperado dela. Isto, mais a imitação do modelo vindo dos pais, e está “pronto” mais um psicopata.
Mas vamos colocar as coisas em suas devidas proporções: psicopata é tanto o sujeito que estupra e mata vinte mulheres, corta-as em pedacinhos, espalha os pedacinhos por aí e, quando finalmente é preso, conta o que fez nas frente de uma câmara de TV como se estivesse contando uma historinha para o filho dormir, sem nem piscar, passando pelas “Ivones” da vida, que manipulam, enganam, extorquem (171 de carteirinha) até aquele sujeito que todos conhecemos, que só fuma cigarro “simidão”, que nunca tem dinheiro no bolso e sempre te leva para jantar num lugar que não aceita cartão, enfim, alguém que tira um pouquinho de cada um, e deste jeito acaba sendo meio que “sustentado” por quem não lhe deve nada…
E isto acontece com todos os tipos de caráter. Para dar outro exemplo, o caráter obsessivo vai desde uma tendência a confirmar se trancou a porta direito e uma preocupação exagerada com a limpeza das mãos, até o comportamento (que dificulta a convivência social) de quem sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), como o personagem de Jack Nicholson no filme “Melhor impossível” (ainda não viu? pois trate de ver). Personagem este meio que copiado no do psiquiatra da novela, que precisava pular um tapetinho para entrar na sua Clínica, mas não tinha nenhum outro sintoma de TOC. Isto simplesmente não acontece. É o que dá querer falar do que não se entende sem ter orientação correta…
Mas, voltando para a questão do caráter, em todos os casos, o “tipo de caráter” vai desde “um jeito de ser” até a doença. Sim, psicopatia, dependendo do grau, é doença. Mas isso não significa que a pessoa não tenha que responder por seus crimes, só que isto é uma outra discussão (nem Glória Peres quis definir a maneira como seus personagens seriam punidos, com exceção de Zeca…). Agora, é verdade que é preferível não ter um psicopata como “melhor amigo”. Mas sempre vai haver alguém assim na nossa família, na nossa vizinhança, no nosso trabalho, e precisamos aprender a conviver com estas pessoas sem sermos lesados por elas, mas sem necessariamente tratá-las como a escória da sociedade. Fácil não é.
Porém, a pergunta que não quer calar é: psicopata morre psicopata? Não sei. Acho que depende. Depende do grau de psicopatia, depende se a vida vai dar um motivo para a pessoa querer mudar, depende se ela é mais ou menos feliz deste jeito, depende de quem está em torno dela na vida adulta… Prefiro acreditar na capacidade de mudança do ser humano, mas ainda estamos longe de encontrar a “cura” para os distúrbios de personalidade, para o sofrimento psíquico (que é a forma “politicamente correta” atual de nominar a loucura), enfim, para os “males da alma”. Mas mudar de repente, assim como o Zeca, só em novela mesmo…
Falando em males da alma, quero crer (e espero não ser demasiadamente cruel ao mexer com isso), que o fato de Glória Peres nos brindar não com um, mas com dois personagens que são considerados mortos, são pranteados, é feito todo o ritual de sepultamento ou cremação, etc., e o sujeito está vivinho da silva, deve-se ao desejo, inevitável, que temos de que nossos entes queridos que morreram retornem. Glória Peres, como todos sabem, perdeu sua jovem filha nas mãos de um casal de psicopatas dignos de pena. Por Glória não sinto pena, mas sim compaixão (sentir junto). O que não me impediu de, no segundo caso de “morreu-mas-tá-vivo”, ter tido um siricotico.
Mudando de saco para mala, e voltando à minha afirmação de que Glória Peres tem a péssima mania de atirar uma questão ao público, sem fazer a menor discussão sobre a mesma, temos um assunto recorrente em suas novelas que é a maneira como algumas culturas tratam as mulheres como seres inferiores e sem direitos (“Explode coração”,”O Clone”, “Caminho das Índias”…). Nesta última, não bastasse todo o resto, Glória nos “brinda” com todos os detalhes extremamente cruéis com que se trata (ou tratava?) uma viuva na Índia (aliás, a viúva que não é viúva, é bígama, pois além do marido estar vivo, ainda é casada com uma bananeira…). E daí? Qual o personagem que faz o contraponto? Quem fala em defesa dela? Tirante alguns resmungos inúteis de Camila, ninguém.
Não quero menosprezar a capacidade de crítica e raciocínio do público, mas quando passava a novela “O clone”, por exemplo, eu via mulheres achando graça na maneira como Jade desobedecia às normas de sua sociedade, ao invés de se inconformarem com estas normas, como eu. Havia um personagem em “O clone”, o tio Abdo, que vivia afirmando que fulana deveria levar chibatadas em público, beltrana também… Há não muito tempo, André Marques, no Vídeo Show, fez uma lista de personagens de novela (mulheres, claro) que mereciam umas boas chibatadas em público. Para ver que nem a violência física contra as mulheres deixa de ser considerada piada por alguns. O que me faz pensar que é preciso mais que simplesmente mostrar a maneira como a mulher é (mal) tratada pelo mundo afora.
E, falando nisso, queria discutir a questão da violência da mulher contra a mulher nas novelas. Fora a violência psicológica exercida pelas sogras, mães, e congêneres, está virando moda mulher apanhar de mulher em novela. A vilã apanha da “mocinha”. Em casa, todo mundo tem um orgasmo, uma catarse, livra-se de todo o ódio que acumulou contra a vilã durante toda a novela. Mas tem muitos problemas aí. Primeiro que parece que violência, vinda da mulher e não do homem, é um problema menor. Não é. Violência é sempre ruim, e quase sempre o mais forte vai bater no mais fraco, e sempre vai ser injusto (fisicamente falando). Já há vários casos de grupos de meninas atacando uma menina sozinha nas escolas e, além de bater, já que a mulher valoriza tanto a própria aparência, provocando o “enfeiamento” da garota, das maneiras mais cruéis possíveis. Em segundo lugar, se a “mocinha” bate na vilã, parece justo. Mas como todo mundo acha que está certo nesta vida, então se eu estiver certa e a outra mulher errada, eu posso bater nela, é isso?
O fantástico reproduziu, dias atrás, as cenas de violência entre mulheres mais famosas nas novelas. Todas medonhas e inverossímeis, pois a vilã parece virar uma burra de repente, e não consegue sequer se defender. Temos uma cena como esta nas novelas “Celebridade”, “Senhora do Destino”… A exceção, das cenas que o Fantástico resgatou, é a briga entre duas irmãs em Dancing Days (personagens feitas por Joana Fon e Sônia Braga). É diferente, primeiro, porque elas se estapeiam mutuamente, o que dá para acreditar que pode acontecer. Segundo, porque terminam a briga, onde ninguém se machuca seriamente, entre gargalhadas. Eu, que tenho uma irmã, sei que esta é uma relação de amor e ódio, onde poderia até mesmo ocorrer uma situação assim. Agora, quando a novela “Duas Caras” tentou imitar esta cena na briga de duas mulheres que sempre se detestaram, que já se conheceram na vida adulta, e não tinham nenhum parentesco, ficou ridículo.
Em “Caminho das Índias”, Ivone apanha terrivelmente de Melissa. Chutes no estômago é que não faltam. Foram contratadas dublês para ambos os papéis… A gente fica achando que Melissa bateu em Ivone desta maneira porque Sílvia não terá coragem de fazê-lo. Que nada. Primeiro, Silvia ataca Ivone no banheiro de um rodoviária. E chutes e mais chutes no estômago… É meio que detida por duas policiais, porque as outras mulheres que estão no banheiro ficam só assistindo. Depois, absurdo dos absurdos, Silvia ataca Ivone dentro de uma delegacia, com chutes que levariam qualquer uma para o hospital, e quem a faz parar é a cunhada. Os policiais não tomam nenhuma providência. Atrás, na cena, um cartaz contra a violência doméstica. Uma piada. Já quando Raul dá um bofete em Ivone na delegacia, o delegado manda prendê-lo, ameaça com a Lei Mª da Penha (que vale para mulher que bate em mulher também, sabia?), faz um escândalo. Beleza, então agora só é preciso que os homens contratem uma mulher para bater em outra, que fica tudo certo, né? Autor de novela tem que ter consciência de sua responsabilidade social em todos os detalhes de sua história. Porque novela pode servir para educar, ou para deseducar.
Por fim, devo dizer que acredito que todos esperavam, como eu, uma cena final de amor maravilhosa entre Raj e Maya, mas não precisava exagerar, né Glória? Isso da roupa de Maya mudar da de viúva para a de noiva, vamos combinar, né? Nem em novela dá para engolir…
* Li Travassos tem graduação em Psicologia pela UFPR (1987) e Mestrado em Psicologia pela UFSC (2003), com a dissertação “Mulher, História, Psicanálise”.
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O Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina batizou de Primavera Quente a série de atividades em defesa do diploma para o exercício da profissão de jornalista e contra os oligopólios de mídia. A primeira foi no dia 3 de setembro de 2009 na Esquina Democrática, em Florianópolis, com o lançamento de um abaixo-assinado e de um texto explicativo para a população sobre os problemas provocados pela concentração de meios de comunicação em SC, com ênfase no caso do Grupo RBS. O objetivo é que o abaixo-assinado circule em todo o Estado e seja anexado à Ação Civil Pública proposta pelo Ministério Público Federal contra o oligopólio praticado pela empresa gaúcha.
LEIA O TEXTO ENTREGUE À POPULAÇÃO:
A palavra é complicada, tal como é complicada a situação: oligopólio. Mas o que é isso afinal? Oligopólio, palavra de origem grega, é uma condição na qual um único grupo de empresas domina uma determinada oferta de produtos e serviços. Nesse caso, estamos aqui falando da informação. Em Santa Catarina uma única empresa determina o que cada um de nós lê, ouve ou vê. É a RBS. Hoje ela é dona de todos os jornais de grande circulação no Estado: Diário Catarinense, A Notícia e Jornal de Santa Catarina. Além disso, domina a televisão em todo o estado com várias geradoras e retransmissoras, tendo ainda rádios e canais a cabo.
POR QUE O OLIGOPÓLIO É RUIM?
Primeiro, porque é ilegal. A Constituição brasileira, no seu artigo 220, diz que os meios de comunicação social não podem, direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou oligopólio. Segundo, porque no campo da informação, quando um único grupo determina o que é divulgado, isso é ruim para a democracia. As pessoas têm apenas uma visão dos fatos e esta visão não é neutra e muito menos imparcial. As empresas de comunicação têm seus interesses e sua ideologia. É muito importante para a efetivação de uma verdadeira democracia que as pessoas possam ter várias visões sobre as coisas que acontecem. E mais, além das múltiplas visões, as pessoas precisam ver nos jornais e na TV a vida real, de verdade. No geral, o que vimos na televisão não tem nada a ver com a gente. Falam os políticos, falam os empresários, os ricos e os famosos.
E a vida da gente? Não sai no jornal
Os empobrecidos e os trabalhadores só saem na mídia quando são vítimas de tragédia ou quando são mostrados como bandidos. Mas não é isso que são. O povo constrói a cidade, o Estado, o país. O povo faz festas, trava lutas, sonha, trabalha. As gentes querem ser vistas como seres que ajudam a fazer esse país ir para frente. Com o oligopólio (domínio) da informação na mão da RBS, o povo fica prisioneiro de uma única empresa. Por isso, queremos o seu apoio para que a lei seja cumprida. Se a Constituição diz que não pode haver oligopólio, por que isso não é barrado? Hoje está na Justiça uma ação que pede o fim do oligopólio em Santa Catarina. Faça valer a lei! Exija seu cumprimento. Assim, cada um dos habitantes deste estado estará ajudando no processo de construção da soberania comunicacional, que significa o direito de se ter várias visões sobre os fatos. Assine o abaixo-assinado pelo fim do oligopólio de mídia!
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Em Santa Catarina seguem as discussões sobre quais propostas levar para a Conferência Nacional de Comunicação, que deve se realizar em dezembro deste ano. Há meses que representantes de vários setores do movimento social (majoritariamente os ligados ao campo da comunicação) estão se reunindo e debatendo. No último dia 15 de agosto foi a vez da realização do Primeiro Seminário Pró-Conferência Estadual, com a participação, como conferencistas, do presidente da Federação Nacional dos Jornalistas, Sérgio Murilo de Andrade, e do professor da UFSC, Carlos Locatelli, além de representantes de várias regiões do estado.
No debate, que ocupou toda a parte da manhã, foi possível perceber a dificuldade que será o avanço nas questões mais estruturais da problemática comunicacional brasileira. No mais das vezes, cada grupo acaba refletindo apenas as suas questões intestinas, minimizando o debate dos temas mais gerais. Não bastasse isso, ainda há os que atuam dentro de uma consciência ingênua acreditando que os meios de comunicação, da maneira como estão estruturados, não são tão maléficos assim, e que a população de maneira geral tem bastante clareza sobre a enxurrada de lixo – e sobre a sedução capitalista – que os meios lançam sobre ela. Por conta disso, acusam os que querem pensar a totalidade de estarem subestimando as gentes.
Outra questão que mostra certa debilidade no debate é o desconhecimento dos avanços efetuados em outros países da América Latina no que diz respeito à comunicação. No geral, as pessoas não se preocupam em saber sobre como se deu, por exemplo, a mudança da lei na Venezuela, onde durante vários meses o governo discutiu com a população a proposta de uma lei geral de radiodifusão, que acabou aprovada sob o nome de Lei Resorte, garantindo mudanças estruturais no sistema. Também poderíamos citar o caso da Argentina, que desde a ditadura militar não mexia neste setor e que agora, no governo de Cristina Kirchner, também aprova uma lei que avança em pontos que o movimento social considera importantes. Igualmente na Bolívia e no Equador, as novas Constituições apontam mudanças e provocam reestruturações que devem ser conhecidas para que se possa pensar o nosso país dentro do contexto latino-americano. E aí não se trata de copiar modelos, mas de perceber como estes países conseguiram avançar desde uma postura nova do Estado.
E é por entender que sem mudança no Estado fica praticamente improvável o avanço da democratização, que a nossa intervenção se dá na direção da proposta de um outro Estado, com democracia participativa, com projeto nacional, com propostas concretas de transformação estrutural. A conferência precisa realizar um grande debate sobre qual é o Estado que queremos, porque é isso que vai delimitar os avanços que poderemos fazer acontecer. O governo de Luis Inácio, desde o seu início, em 2003, deixou bem claro a quem está servindo. É um governo se tem se prestado a todas as demandas do capitalismo internacional e, como se sabe, é da natureza deste sistema viver sob a ditadura do capital, inviabilizando, portanto, qualquer avanço democrático de fato. A dita democracia capitalista é um regime no qual a lei é movediça e está sempre mudando para defender os interesses dos graúdos. Assim, fincar pé em pequenas mudanças na lei é fazer muito barulho por nada, já que nestas condições, as mudanças acontecem apenas para que tudo fique como está.
Os empresários
A última jogada do tabuleiro da Confecom deixa muito explícita a tranquilidade do empresariado da comunicação no que diz respeito à movimentação popular. Ao não verem contempladas as suas exigências na organização do evento, no qual queriam impor suas pautas, decidiram sair do processo, deixando registrado em documento oficial que os movimentos sociais poderiam “fazer a conferência e apresentar as suas sugestões”. Ou seja, ao povo está dado o direito de “fazer sugestões” porque eles, que são os que detêm o controle do Estado, podem fazer o que quiserem depois. Isso, por si só, já deveria mostrar aos movimentos sociais que sem uma mudança no quadro de poder do Estado, muito pouco vai se avançar.
Mas, na contramão da história, os dirigentes da Fenaj insistem que a presença dos empresários na Conferência é muito importante para que se estabeleça o diálogo. “Queremos os empresários lá, porque teremos condições de igualdade”, afirmou Valci Zucolloto. “Muita coisa nós podemos discutir só com o Estado, mas outras não. Por exemplo, a regulamentação, as concessões. Isso temos que discutir com os empresários”, disse Sérgio Murilo.
Acreditar que a simples presença dos empresários na Conferência estabelece uma “igualdade no diálogo” é, no mínimo, estar muito equivocado sobre o lugar histórico que a Fenaj ocupa neste jogo de poder que é a luta por uma comunicação verdadeiramente democrática, com controle social. O espaço da conferência não dá e não pode dar igualdade porque esta igualdade não existe no plano real. O que há, de fato, é um poder enorme dos grandes monopólios de comunicação, em completa harmonia com o Estado. Aos movimentos sociais caberia compreender que, por serem maioria e por estarem conectados com os anseios populares, a eles – e só a eles – pertenceria o papel histórico da luta concreta por uma mudança radical no setor de comunicação. Nenhuma composição de classe é possível, nenhum consenso habermasiano é possível, quando aos donos das empresas – ramificados nos legislativos nacionais, estaduais e locais – está reservado todo o poder. E, se é assim, por que diabos discutir com eles questões chaves como as concessões? Se a radiodifusão é uma concessão do Estado, é com ele, e só com ele, que a sociedade tem de dialogar. Os empresários deveriam apenas se submeter à vontade popular, pois isso sim é democracia.
O povo não é bobo
Algumas falas durante o encontro catarinense se remeteram a idéia de que o povo sabe muito bem que os meios de comunicação mentem e que não é preciso que nenhum “iluminado” venha “ensinar” sobre esta questão. Isso para rebater a proposta de que é necessário sair das reuniões de gabinete e ganhar às ruas onde está a maioria das gentes que não pertence ao mundo da comunicação. Mas, como bem já ensinou Guerreiro Ramos existe uma diferença abissal entre a consciência ingênua e a consciência crítica. O trabalho daqueles que atuam na área da comunicação não é o de “ensinar”, mas sim o de desvelar os mecanismos que fazem os meios serem como são, levando as pessoas a entender de maneira crítica aquilo que elas já sabem não ser bom.
As gentes que não estão envolvidas diretamente neste processo não têm como saber sobre todas as nuances que envolvem o jogo de poder, no qual os empresários da comunicação dão a diretriz e instituem a pedagogia da sedução capitalista. Por isso que atuar nas Associações de Moradores, nos sindicatos, nos movimentos populares de outra ordem que não os da comunicação, passa a ser condição fundamental para o sucesso da Confecom. Sem tirar da mira a idéia de transformações estruturais, poderemos avançar nesta conjuntura, mesmo sabendo que a luta será difícil. Mas, sem a participação de outros setores da luta social, isso fatalmente não acontecerá.
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Elaine Tavares, de Florianópolis
A Rede Brasil Sul faz 30 anos em Santa Catarina. Por conta disso, todos os dias, as sua emissoras de televisão mostram propagandas que retratam seus funcionários sorridentes, felizes e cheios de otimismo. Essa felicidade só se explicaria pelo fato de ali, naquela empresa, eles venderem a sua força de trabalho e por isso receberem um parco salário (com exceção dos figurões que ganham muito bem). Nestes tempos bicudos, ter um emprego já é coisa para se comemorar, daí se poder entender aquela alegria toda na telinha. Tirando isso – a vida mesma de quem trabalha na empresa – o que sobra é o saldo de três décadas de monopólio da informação, coisa altamente nefasta para a democracia, para os próprios trabalhadores e para a vida cultural de um povo.
Anos 70 – Santa Catarina é prisioneira do conservadorismo
Quando a década de 70 principia, vem carregada de mudanças em todo o planeta. O maio de 68 detonara revoluções culturais, o movimento hippie cresce, as lutas populares de libertação em Portugal e nas colônias da África apontam novos rumos, a derrota dos Estados Unidos no Vietnã enche de esperanças o movimento socialista. Mas, no Brasil, a ditadura militar recrudesce sob a mão dura do general Médici, vivendo uma espécie de contra-mão da história. São tempos duros, de massacres de lideranças estudantis e políticas. Neste contexto cresce a influencia da empresa de Roberto Marinho que, aliada aos militares e ao grupo estadunidense Time-Life, começa a consolidar no país uma rede comunicacional com o objetivo de criar “uma identidade nacional”. São tempos de “milagres” e do silêncio das vozes críticas. Santa Catarina não foge do diapasão. Mergulhada no conservadorismo, alterna-se entre o domínio das famílias Ramos e Bornhausen.
No campo da comunicação, apesar de a televisão já ter chegado ao Brasil nos anos 50, em Santa Catarina a população conta com apenas dois canais. Um deles é a TV Coligadas, com sede em Blumenau que, naqueles dias, transmitia o sinal da rede Globo, embora tivesse liberdade de produzir programação local. O outro canal fica em Florianópolis e retransmite o sinal da TV Tupi, sendo conduzido pelo clã Ramos/Bornhausen. De fato, tanto uma emissora como a outra estava nas mãos das oligarquias estaduais e serviam para respaldar o regime que por aqui tinha fortes aliados. Mas, por conta do atraso político, estes grupos conservadores não perceberam as mudanças que aconteciam no mundo da comunicação. Capitaneada pelo grupo Marinho, a proposta era de encarar esse setor como mais um braço da indústria, capaz de gerar não só riquezas, mas também – e principalmente – mais-valia ideológica. E foi aí que a RBS entrou com força total.
O grupo RBS
Quando Maurício Sirotsky, o patriarca da RBS, colocou os olhos sobre Santa Catarina, já tinha consolidado um projeto ambicioso no Rio Grande do Sul. Desde o ano de 1957, quando comprou a Rádio Gaúcha, Maurício foi ampliando o que mais tarde veio chamar de “rede regional”. Ou seja, devagar e sem alarde, foi comprando os mais importantes veículos de comunicação do Estado. Em 1961 já era dono da TV Gaúcha e em 63 abocanhava mais três repetidoras. Em 1970 comprou o jornal Zero Hora e no ano seguinte fechou acordo com a Rede Globo para retransmitir seu sinal pela TV Gaucha. Em 1972 dominava o Estado através de 102 retransmissoras e quatro geradoras. Alinhava-se então ao projeto de hegemonização da identidade nacional liderado pela Globo e seus parceiros militares. Quando a década de 70 terminou, os Sirotsky tinham 10 emissoras de televisão, cinco rádios, um jornal, uma editora e uma gráfica. Era um pequeno império que já se configurava um monopólio comunicacional.
E foi essa fome de dominação midiática que sentiu o cheiro das possibilidades em Santa Catarina. Atrasado e prisioneiro de políticos ultraconservadores o Estado não via as mudanças que aconteciam no país dentro do processo de acumulação capitalista. A comunicação também virara uma indústria e exigia uma gestão empresarial competente. Além disso, a rede Globo não aceitava que, na capital, Florianópolis, o seu sinal – que vinha pela TV Coligadas de Blumenau – continuasse perdendo para a Tupi. Foi essa confluência de fatores que fez com que a família Sirotsky se achegasse de mansinho e fosse assumindo o controle da comunicação em Santa Catarina. Ela trazia seu conceito de “rede regional” e, com isso, permitia que o sinal da Globo infectasse todo o Estado.
A chegada em Santa Catarina
Quando em 1976 foi aberta a concorrência para a concessão de um canal na capital, Florianópolis, os Sirotsky se apresentaram. Segundo a pesquisa realizada pela jornalista Dulce Márcia Cruz, não há uma explicação muito clara para o fato de a oligarquia catarinense ter perdido esse processo. O que se pode aventar é que o governo militar, aliado a Globo, pode ter entendido que a proposta empresarial do grupo gaúcho seria mais competente para alavancar o projeto de dominação nacional pela palavra. Assim, a RBS ganhou o canal 12 e em 1979 colocava no ar a sua programação em Santa Catarina. Era a Globo travestida, como bem mostra o professor Carlos Alberto de Souza no livro “O fundo do espelho é outro”.
A partir da primeira emissora em Florianópolis o conceito de rede foi se ampliando. Em três anos de vida no estado, a RBS já havia comprado emissoras em Joinville, Blumenau e Chapecó. Depois, “devagarito”, fez como fizera no Rio Grande, e foi ampliando sua malha. Hoje, a Rede Brasil Sul controla praticamente toda a comunicação do Estado, tendo garantido mais duas emissoras de TV, em Joaçaba e Criciúma, além de uma “comunitária”, a cabo, com sede em Florianópolis. Também são de sua propriedade as rádios CBN e Itapema, assim como um portal na Internet. Não bastasse isso, a RBS comprou o Jornal de Santa Catarina, com sede em Blumenau, e mais recentemente o A Notícia, de Joinville. Os dois jornais tinham circulação estadual e eram, a seu modo, uma alternativa para a população. Mas, agora, depois da compra, os dois periódicos passaram a circular apenas nas respectivas regiões e configuram um monopólio informacional, visto que são as mesmas informações que circulam em todos os veículos. Considerando que a concorrência é quase irrisória, praticamente, tudo o que se vê, lê e ouve no estado está sob o controle da RBS.
Já no campo trabalhista, esses mesmos trabalhadores que aparecem sorridentes nas propagandas, estão submetidos a contratos leoninos. Atualmente, os jornalistas que atuam no jornal precisam fazer a matéria escrita e produzir também em vídeo, para a cara multimídia da empresa. O salário, é claro, segue sendo um, embora as funções aumentem. No interior do estado, conforme denúncias que chegam ao Sindicato dos Jornalistas, ainda precisam dirigir e fotografar em alguns casos. É o suprassumo do que Ruy Mauro Marini configurou teoricamente como a super-exploração do trabalho, relação típica do capitalismo dependente dos países periféricos. Ou seja, não basta explorar, é preciso sugar até a última gota. O povo se submete porque, em função do monopólio, a RBS acaba também monopolizando o mercado de trabalho.
De qualquer sorte trabalhar na RBS é sempre um risco. Que o diga o fotógrafo Cláudio Silva da Silva que foi preso pela política militar ao fotografar as manifestações da Revolta da Catraca e , no dia seguinte, acabou sumariamente demitido pela empresa. Ou seja, não bastando a arbitrariedade da polícia ao prender um profissional que fazia seu trabalho, a RBS ainda respaldou a violência considerando-o culpado por fotografar e defender seu equipamento. Tomou um processo e perdeu. Outro que protagonizou lutas homéricas contra a RBS por questões trabalhistas foi Renan Antunes, que chegou a deitar-se em frente à empresa para exigir seus direitos. Também ganhou. No geral, as pendengas trabalhistas sempre são ganhas pelos trabalhadores, mas não são muitos os que recorrem aos seus direitos.
Segundo levantamentos do sindicato as condições de trabalho dos funcionários da rede são as mais estressantes, isso por conta do crescente enxugamento da empresa. Para se ter uma idéia, no auge da ocupação do estado a empresa tinha quase três mil trabalhadores, agora tem em torno de 1.600, o que significa que tem gente trabalhando por dois ou três. Super-exploração!
Ação na Justiça
E foi por considerar ilegal e lesiva ao povo catarinense a situação da RBS no sul do país que o Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em Santa Catarina, Celso Antônio Três, apresentou uma ação civil pública ao Ministério Público Federal contra a empresa dos Sirotsky, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica e a União.
Baseado exclusivamente na letra fria da lei, o procurador apela para a tutela dos direitos de informação e expressão do cidadão, a pluralidade, que é premissa básica do Estado democrático e de Direito. Com base nisso ele denuncia e exige providências contra o oligopólio da mídia sustentado pela RBS no Estado de Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Segundo Três, é comprovada documentalmente a posse, nos dois Estados, de 18 emissoras de televisão aberta, duas emissoras por cabo, oito jornais diários, 26 emissoras de rádio, dois portais na internet, uma editora e uma gravadora. Ele lembra ainda que o faturamento do grupo em 2006 chegou a 825 milhões de reais, com um lucro líquido de 93 milhões, tudo isso baseado no domínio da mente das populações do sul que atualmente não têm possibilidade de receber uma informação plural. Praticamente tudo o que se vê, ouve ou lê nos dois estados do sul vem da RBS.
Num debate realizado pelo SJSC o procurador insistiu que filosoficamente ser é ser percebido e isso é o que faz a mídia, torna visível aqueles que ela considera “ser”. Os pobres, os excluídos do sistema, os lutadores sociais, toda essa gente fica de fora porque não pode ser mostrada como ser construtor de mundos. Celso Três afirma que na atualidade o estado é puro espetáculo enquanto o cidadão assume o posto de espectador. Nesse contexto a mídia passa a ser o receptor deste espetáculo diário, ainda que não tenha a menor consistência. “Nós vivemos uma histeria diária provocada pela mídia e o país atua sob a batuta desta histeria”.
No caso de Santa Catarina o mais grave é que esta histeria é provocada por um único grupo, que detém o controle das emissoras de TV e dos jornais de circulação estadual. Não há concorrência para a RBS e quando ela aparece é sumariamente derrotada através de ações ilegais como o “dumping”, como o que aconteceu na capital, Florianópolis, quando da abertura do jornal Notícias do Dia, um periódico de formato popular com um preço de 0,50 centavos. Imediatamente a RBS reagiu colocando nas bancas um jornal igual, ao preço de 0,25 centavos. Não bastasse isso a RBS mantém cativas empresas de toda a ordem exigindo delas exclusividade nos anúncios, incorrendo assim em crime contra a ordem econômica.
Sobre isso a lei é muito clara. Desde 1967 que é terminantemente proibido uma empresa ter mais que duas emissoras de TV por estado. A RBS tem mais de uma dezena. A Constituição de 1988 determina que a comunicação não pode ser objeto de oligopólio. Pois em Santa Catarina é. Segundo Três, na formação acionária das empresas existem “mais de 300 Sirotsky” , portanto não há como negar que esta família controle as empresas como quis fazer crer o Ministério das Comunicações, também réu na ação. “Eles alegaram que a RBS não existe, é um nome de fantasia para empresas de vários donos. Ora, isso é mentira. Os donos são os mesmos: os Sirotsky”.
O procurador alega que a lei no Brasil, no que diz respeito a porcentagem de produção local que deve ter um empresa, nunca foi regulamentada, mas não é por conta da inoperância do legislativo que a Justiça não pode agir. “Nós acabamos utilizando a lei que trata do mercado de chocolate, cerveja, etc. Nesta lei, uma empresa não pode controlar mais que 20% do mercado. Ora, em Santa Catarina, a RBS controla quase 100% da informação”.
Aprofundando o debate sobre a ação oligopólica da RBS, Danilo Carneiro, estudioso do sistema capitalista e membro do Grupo Tortura Nunca Mais do Rio de Janeiro, deu uma aula sobre a formação do sistema capitalista e mostrou como atualmente o capitalismo já não consegue mais reproduzir a vida, tamanha a sua dominação sobre a vida das pessoas e sua sanha por lucros. Desde as cidades-estado italianas, onde o comércio impulsiona a acumulação de lucros, até os dias de hoje a consolidação do capitalismo está ligada à exploração dos trabalhadores e da natureza. Para que isso aconteça é necessário manter as gentes em estado permanente de alienação e aí entram os Meios de Comunicação de Massa. Não é à toa, portanto, que instituições governamentais como o CADE e o Ministério das Comunicações façam vistas grossas ao oligopólio da RBS assim como da Globo. Tudo faz parte da manutenção do sistema.
Sobre a ação na Justiça contra a RBS, Danilo lembrou que hoje no Brasil existem mais de 60 milhões de ações em andamento e isso por si só já dá um panorama do que pode acontecer. Sem uma mobilização política efetiva das entidades e do povo catarinense, essa ação pode se perder no sumidouro da Justiça brasileira.
Na platéia do debate um público muito representativo do movimento social de Florianópolis, tais como representantes do Diretório Central dos Estudantes da UFSC, da União Florianopolitana de Entidades Comunitárias (UFECO), Sindicato dos Previdenciários (SINDPREVS), Sindicato dos Eletricitários (SINERGIA), MST, jornalistas, estudantes, professores. Cada um deles compreendeu que à corajosa atitude do procurador Celso Três, devem se somar ações políticas e de acompanhamento da ação. O Sindicato dos Jornalistas deve se colocar como assistente do Ministério Público, abastecendo-o com informações e as demais entidades vão difundir as notícias e fazer a pressão necessária para o andamento da ação.
Conforme bem lembra Celso Três, esta não é uma ação voluntarista ou ideológica, ela é objetiva e se fundamente na lei maior. Oligopólios são proibidos e as populações de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul tem direitos a uma informação plural e diversificada. Não há amparo legal para a propriedade cruzada, o pensamento único e muito menos para a dominação econômica.
Na senda da fala de Danilo Carneiro, que deixou claro que sob a ditadura do capital é impossível a democratização da comunicação, também assomou entre os presentes a necessidade da discussão e da luta por outra comunicação e outro estado que não esse no qual imperam as relações de dominação. Agora é ficar atento e aprofundar a luta. Sem isso, não anda a ação, e tampouco acontecem mudanças estruturais.
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Elaine Tavares, de Florianópolis
A mídia comercial brasileira, copiadora número um da matriz CNN, que transmite em espanhol, para toda a América Latina, bombardeou os leitores/espectadores/ouvintes com críticas ao governo venezuelano que, na semana passada, encerrou a transmissão de 34 emissoras de rádio naquele país. Não faltaram os comentários raivosos sobre a “ditadura chavista” e muito menos as entrevistas – à exaustão - com os representantes da direita golpista da Venezuela falando da “falta de democracia” de Hugo Chávez.
O que a maioria dos veículos não disse – e se disse foi de forma superficial – é que estas emissoras estavam irregulares perante a lei de radiodifusão. Algumas delas seguiam funcionando mesmo depois que os legítimos possuidores da concessão já haviam falecido, sendo utilizada a conhecida figura do “laranja”. Conforme a lei daquele país, isso não é possível. As ondas eletromagnéticas são uma concessão pública e cabe ao Estado fazer cumprir a lei, caso contrário cai por terra o conceito liberal de “estado democrático e de direito”. Mas, aos liberais, isso, vindo de Chávez, é ditadura. Coisa difícil de entender, não?
Outra informação que a mídia não dá de forma clara é que as freqüências, que funcionavam de forma ilegal e que foram retomadas pelo Estado, passarão por nova licitação e devem ser entregues às entidades comunitárias, para que voltem a apresentar o caráter público que deviam ter. Segundo o ministro de Obras Públicas y Vivienda, Diosdado Cabello, a anulação das concessões se deu não só naquelas em que o titular já havia falecido, mas também nas que estavam com a validade da concessão vencida e sequer se dignaram a comparecer ao órgão responsável por esta questão, a Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel) durante o período que havia sido indicado através de correspondência, demonstrando completo desrespeito com a lei.
O Ministro também informou que existe na Conatel um número muito grande de pedido de concessão e que agora o órgão deve abrir novas licitações. O presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que não há qualquer ataque a liberdade de expressão, pelo contrário, os veículos foram devolvidos ao povo, uma vez que não cumpriam com suas obrigações.
Mas, o certo é que este ato ainda vai render muito pano para manga, principalmente nos grandes veículos de comunicação do chamado “mundo livre”, o qual só considera liberdade de expressão a sua própria. Já cumprir a lei e verdadeiramente democratizar a comunicação passa a ser coisa de “ditador”. Ninguém na televisão foi capaz de informar que no Brasil existem centenas de emissoras comerciais funcionando com a concessão vencida, enquanto as rádios comunitárias seguem sendo estouradas pela Anatel.
Só para lembrar, recentemente o ministro do STF, Gilmar Mendes, acabou com a exigência do diploma para a profissão de jornalista justamente em nome da chamada “liberdade de expressão” dos donos de empresas. Não é à toa que, de maneira hipócrita, os bocas-alugadas estejam fazendo discursos inflamados contra a decisão do governo venezuelano. Já pensou se aqui no Brasil o governo decidisse cumprir a lei? Só em Santa Catarina tramita um processo contra a poderosa Rede Brasil Sul de Comunicação – que, de forma aberta e pública se expressa como um oligopólio – mas caminha a passos lentos. E tudo o que se quer é que a Constituição seja cumprida. Mas, quando ela vai contra os poderosos aí fica parecendo que é coisa de “ditador”. No mundo liberal burguês a lei só se cumpre contra os pobres.
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