Li Travassos*, de Florianópolis
Depois de ter assistido a novela “Duas caras”, cujo final (e boa parte) odiei, me fiz uma promessa de não assistir novela tão cedo. Muito bem, resisti bravamente, apesar de achar que, como há algum tempo estou envolvida com a questão da democratização da comunicação, tenho que saber o que a maioria esmagadora dos brasileiros (milhões de pessoas), anda vendo e absorvendo via TV Globo. Pois bem, no último verão, fui passar uns dias na praia, nada de TV a cabo, e eu assisti alguns capítulos de “Caminho das Índias”. Voltei para casa, vez ou outra via a novela, até que passei a ver mesmo, que eu vicio com facilidade em qualquer coisa.
E, claro, esta novela me deu muiiiiiiiiiiiita raiva. Em primeiro lugar, porque eu, que adoro aprender, me sinto super insegura de registrar o que quer que seja sobre a cultura na Índia mostrado nesta novela. Virava e mexia, alguém fazia um comentário dizendo que o que a novela mostrava sobre isso não tem nada a ver. Daí eu não sei se não tem nada a ver nos dias de hoje, ou se nunca teve. Enfim, saio desta mais burra do que entrei sobre a cultura indiana.
Por outro lado, Glória Perez sempre tenta, em suas obras, ajudar em alguma coisa que ela considera importante socialmente. Desta vez, ela escolheu a questão da saúde mental. O problema é que ela nunca sabe o que quer, em que acredita, e vai mudando de idéia no meio do caminho, sem nenhum respeito ao telespectador. E eu penso que problema maior ainda é o fato de que a maioria das pessoas que assistem novelas realmente não percebem estas mudanças de idéia. Mas vamos dar alguns exemplos.
Quando a doença mental do personagem Tarso (feito por Bruno Gagliasso, simplesmente di-vi-no) começou a aparecer, ele ouvia vozes. Daí a autora da novela mistura esta situação com a do personagem que é um falso guru, e que diz que o caso do Tarso é comunicação de espíritos e, pior, que é o espírito do tio morto (que está vivinho da silva). Provavelmente sob protestos dos kardecistas, que devem ter pulado no pescoço dela, pois realmente acreditam que os espíritos podem se manifestar desta maneira, e até deixar uma pessoa louca, ela acabou rapidinho com esta história. Então tá, o garoto está esquizofrênico mesmo. Daí, tem a clínica do Dr. Castanho. Que tem gente internada, morando lá. Então, provavelmente desta vez sob protestos dos militantes do movimento anti-manicomial, a autora, de uma hora para outra, acaba com os internamentos na dita clínica, e quando Tarso pede para ficar um tempo lá, não pode, porque o espaço só funciona durante o dia.
Depois, Tarso começa a ter delírios paranóicos, e tenta matar duas pessoas que ele acredita que estão conspirando contra ele. Num dos casos, o sujeito se salva por muito pouco. Sabe Deus quem pulou no pescoço dela então, mas ela começa imediatamente a colocar o psiquiatra dizendo que o louco não é perigoso, que o esquizofrênico não é violento, e blá, blá. E Tarso nunca mais ameaça ninguém. Para completar, a mãe do garoto assume a responsabilidade pela tentativa de assassinato cometida pelo filho, e até agora não foi a julgamento. Quem sabe no próximo capítulo. Opa, não tem… talvez então na próxima novela.
Ainda em torno da esquizofrenia, temos uma família pobre, em que uma mulher sustenta dois filhos, um deles esquizofrênico, que apronta todas, e ela acha graça 80 por cento do tempo, independentemente das reclamações do outro filho, que diz que ela só é mãe do esquizofrênico, que não é mãe dele, que não o protege do irmão, que não dá atenção a ele, e ela só faz responder que ele tem que agradecer a Deus por ser saudável, que é um ciumento, e ri da cara dele. Ponto. Nenhuma discussão, em nenhum dos infindáveis capítulos da novela, sobre a situação dos irmãos de pessoas doentes mentais, do que elas sentem. Nada. Nem mesmo quando o “irmão saudável” vai conversar com o psiquiatra, consegue algum tipo de apoio real. No último capítulo, a mãe diz que ele samba melhor que o irmão, o personagem esquizofrênico, que foi feito por um ator que me parece ser um dançarino profissional, pois dança divinamente. Ou seja: o elogio é completamente inverossímil. A autora da novela mostra o problema dos sentimentos de quem tem um irmão doente, mas não há discussão. E cada um se coloca no lugar de quem quer. Não que eu ache que a coisa tem que ser dada pronta, mas é preciso um mínimo de reflexão sobre a M que se joga no ventilador. Ou não?
Daí, passando para o assunto que parece predileto à autora neste momento, temos a questão dos psicopatas. Eu sei que a autora baseou toda a fala do seu personagem que é psiquiatra (Stênio Garcia, maravilhoso como sempre) na obra de alguém que tem um estudo sobre este distúrbio de personalidade. Mas eu tenho que discordar de muita coisa nas posições desta pessoa. E acho que a própria Glória, intuitivamente, também discorda. Senão, vejamos. A novela, para variar, como toda novela, é recheada de gente mau-caráter. Ora, para quem não sabe, “mau-caratismo” é, de certa foram, o mesmo que psicopatia.
Mas o que é a psicopatia? De acordo com várias linhas da psicologia, todos nós temos um determinado tipo básico de caráter (que não tem nada a ver com bom ou mau-caráter), que é um conjunto de características de personalidade. Exemplos de tipo de caráter: histérico, obsessivo compulsivo, oral, etc. E o tipo de caráter psicopático seria um destes. Veja que a classificação em tipos de caráter não tem a função de rotular ninguém, apenas de ajudar o psicoterapeuta a ter um “caminho” a seguir no processo terapêutico. Para as pessoas comuns, o tipo de caráter do outro não interessa. Até porque nosso caráter não é puro, e sim misturado com um tanto deste ou daquele, o que nos torna únicos. Mas este “caminho” só interessa ao psicoterapeuta porque permite voltar ao passado do paciente. Ou seja: todo tipo de caráter tem sua origem na educação, nas vivências familiares, na história do indivíduo.
Na visão da pessoa cuja teoria é usada na novela, o psicopata já nasce assim. Pelo que entendi, os esquizofrênicos também. Ora, esta visão de que as pessoas nascem deste ou daquele jeito é uma ótima maneira de desresponsabilizar a sociedade, representada pela família, de toda e qualquer influência sobre as pessoas. E não tem base científica nenhuma. Tanto as linhas da psicologia que derivam, direta ou indiretamente da psicanálise, como aquelas que derivam, direta ou indiretamente, do behaviorismo, afirmam que a vivência da pessoa, a maneira como ela é tratada na família (e em outros espaços) na infância, determinará seu comportamento na vida adulta. A diferença é que a psicanálise é mais subjetiva, leva mais em conta a maneira como a pessoa sente suas vivências, e o behaviorismo (ou terapia cognitivo-comportamental) é mais objetivo, considera mais diretamente a questão estímulo-resposta.
Se acreditamos que as pessoas já nascem prontas, podemos deixar de nos preocupar, por exemplo, com o incentivo absurdo ao consumismo em nossa sociedade, que faz com que as pessoas desejem o que não podem ter e, por vezes, de tanta frustração, vão buscar uma maneira torta de conseguir o que querem. Além disso, uma teoria que pressupõe que a pessoa “já nasce assim”, sem que isto esteja ligado a fatores genéticos (como na síndrome de Down), nem a problemas ocorridos na hora do parto (como na paralisia cerebral), não pode se propor científica. Teria que estar baseada na crença religiosa na reencarnação e, assim mesmo, de uma maneira tão radical que não permitisse a evolução da pessoa durante uma vida inteira. A pessoa não só nasceria psicopata, mas ela morreria psicopata também. Para mudar, só mesmo na próxima encarnação…
Epa! Mas você não ouviu esta idéia antes? Não é assim, exatamente assim, que se definem (ou definiam) as castas na Índia? Não é da mesma forma que se justificava a falta de dignidade na vida dos dalits? Que se justificava que a eles fossem entregues os trabalhos que ninguém queria, os considerados indignos, e eles não poderiam almejar a nada além disso? A Igreja Católica, tempos atrás, afirmava que as pessoas negras não tinham alma. Com isso, facilitavam a vida dos “donos” de escravos, que podiam dispor da vida de seus “pertences”, inclusive com a morte. Muitas religiões ainda colocam a mulher em um lugar secundário, inferiores em tudo aos homens, facilitando com isso a perpetuação da dominação masculina. Tanto a religião quanto a ciência só são úteis ao ser humano quando buscam a inclusão, não a exclusão. Quando buscam a solução, não o conformismo. Quando combatem o preconceito, não quando o incentivam.
O comportamento psicopático em uma pessoa é o resultado de uma infância onde não havia os modelos positivos necessários para a introjeção de limites. Segundo a psicanálise, através dos limites impostos pelos pais, a criança acaba desenvolvendo o “superego”, que seria uma forma de introjetar (pôr para dentro) as leis que estruturam a sociedade em que ela vive. Com isso a pessoa desenvolve a potencialidade para sentimentos de culpa, responsabilidade, compaixão, remorso…
Ainda sob a perspectiva psicanalítica, a “primeira lei” é a lei da proibição do incesto. A filha não pode fazer sexo com o pai, o filho não pode fazer sexo com a mãe. Mas e que acontece nas famílias onde as crianças são abusadas sexualmente? Onde o pai, que deveria ser o transmissor da lei, é o primeiro a quebrá-la, abusando da própria filha? E não vamos nos prender à questão do abuso, mas vamos ampliar para a sedução. Que acontece quando a criança se sente seduzida (manipulada) de forma a que o adulto consiga dela o que quer? Acontece que, ao invés de introjetar um superego, a criança vai é desenvolver a crença na idéia de que tudo é permitido, desde que ela consiga “se dar bem”. O negócio é levar vantagem em tudo, certo? E filho de psicopata, psicopata é. Sob esta perspectiva, Ivone, o monstrinho psicopático número 1 da novela sobre a qual falamos, não poderia ter tido uma família de comercial de margarina, com uma mãe dedicada a transmitir os melhores valores aos filhos (como nos conta a autora da novela) e ainda assim ser como é.
Então o filho do psicopata está fadado a ser psicopata também? Assim como o filho de um dalit será um dalit? Não necessariamente. Depende de uma série de fatores, como: quem abusou da criança, que idade ela tinha na ocasião, como agiam as outras figuras parentais, as outras pessoas adultas na vida da criança, etc., etc. É um tanto subjetivo. E psicopata não tem sentimentos? Tem sim. Psicopata sente raiva, frustração, ódio, inveja, insegurança, paixão, desejo, prazer… Só não sente culpa, nem medo de ser punido, pois quem não se sente culpado não tem medo de ser punido, certo? E claro, vai daí que não sente remorso, arrependimento, pois tudo isso é decorrência da culpa… Compaixão, capacidade de se colocar no lugar do outro? Bueno, nisso nem quem não é psicopata costuma ser muito bom…
Se buscarmos, por outro lado, uma compreensão cognitivo comportamental do assunto, teremos que a criança, de alguma maneira, foi reforçada em seu comportamento psicopático desde a infância. Mas não de maneira tão redondinha como acontecia na novela na família de César, Ilana e seu filho Zeca. Peço atenção para o fato de que esta família é uma maneira totalmente diferente de colocar a origem da psicopatia do que o discurso do psiquiatra de que o psicopata já nasce assim, blá, blá (confirmado na fala da mãe de Ivone). Só para exemplificar, mais uma vez, que Glória Peres não sabe muito bem que posição defender em suas novelas.
Voltemos para a família do Zeca. César e Ilana são psicopatas típicos, pessoas sem valores, sem limites, sem ética. Pessoas assim não amam profundamente nem dentro da própria família. Uma mãe psicopata vai seduzir o filho em seu benefício, vai extorquir o marido em seu benefício (não em benefício do filho), vai manipular, enganar, em todo lugar e momento, inclusive no seu local de trabalho (onde Ilana parecia ser bem correta). O pai psicopata vai competir com o filho. Se achar que a esposa gosta mais do filho que dele, vai tentar destruir o filho. Vai gastar seu dinheiro prioritariamente consigo mesmo, enfim, não vai ser este paizão que César é para Zeca, nem aqui, nem na Índia, nem na China. Lembrou do pai do Michael Jackson? Por que será… Mas estes pais podem, de alguma forma, demonstrar um resquício de respeito pelo filho quando é ele que manipula, que engana, que prejudica alguém (desde que faça isso com os outros). Dificilmente a coisa será tão declarada como “Aí meu filho, mandou bem!”. Mas a criança vai perceber que isso é o esperado dela. Isto, mais a imitação do modelo vindo dos pais, e está “pronto” mais um psicopata.
Mas vamos colocar as coisas em suas devidas proporções: psicopata é tanto o sujeito que estupra e mata vinte mulheres, corta-as em pedacinhos, espalha os pedacinhos por aí e, quando finalmente é preso, conta o que fez nas frente de uma câmara de TV como se estivesse contando uma historinha para o filho dormir, sem nem piscar, passando pelas “Ivones” da vida, que manipulam, enganam, extorquem (171 de carteirinha) até aquele sujeito que todos conhecemos, que só fuma cigarro “simidão”, que nunca tem dinheiro no bolso e sempre te leva para jantar num lugar que não aceita cartão, enfim, alguém que tira um pouquinho de cada um, e deste jeito acaba sendo meio que “sustentado” por quem não lhe deve nada…
E isto acontece com todos os tipos de caráter. Para dar outro exemplo, o caráter obsessivo vai desde uma tendência a confirmar se trancou a porta direito e uma preocupação exagerada com a limpeza das mãos, até o comportamento (que dificulta a convivência social) de quem sofre de TOC (transtorno obsessivo compulsivo), como o personagem de Jack Nicholson no filme “Melhor impossível” (ainda não viu? pois trate de ver). Personagem este meio que copiado no do psiquiatra da novela, que precisava pular um tapetinho para entrar na sua Clínica, mas não tinha nenhum outro sintoma de TOC. Isto simplesmente não acontece. É o que dá querer falar do que não se entende sem ter orientação correta…
Mas, voltando para a questão do caráter, em todos os casos, o “tipo de caráter” vai desde “um jeito de ser” até a doença. Sim, psicopatia, dependendo do grau, é doença. Mas isso não significa que a pessoa não tenha que responder por seus crimes, só que isto é uma outra discussão (nem Glória Peres quis definir a maneira como seus personagens seriam punidos, com exceção de Zeca…). Agora, é verdade que é preferível não ter um psicopata como “melhor amigo”. Mas sempre vai haver alguém assim na nossa família, na nossa vizinhança, no nosso trabalho, e precisamos aprender a conviver com estas pessoas sem sermos lesados por elas, mas sem necessariamente tratá-las como a escória da sociedade. Fácil não é.
Porém, a pergunta que não quer calar é: psicopata morre psicopata? Não sei. Acho que depende. Depende do grau de psicopatia, depende se a vida vai dar um motivo para a pessoa querer mudar, depende se ela é mais ou menos feliz deste jeito, depende de quem está em torno dela na vida adulta… Prefiro acreditar na capacidade de mudança do ser humano, mas ainda estamos longe de encontrar a “cura” para os distúrbios de personalidade, para o sofrimento psíquico (que é a forma “politicamente correta” atual de nominar a loucura), enfim, para os “males da alma”. Mas mudar de repente, assim como o Zeca, só em novela mesmo…
Falando em males da alma, quero crer (e espero não ser demasiadamente cruel ao mexer com isso), que o fato de Glória Peres nos brindar não com um, mas com dois personagens que são considerados mortos, são pranteados, é feito todo o ritual de sepultamento ou cremação, etc., e o sujeito está vivinho da silva, deve-se ao desejo, inevitável, que temos de que nossos entes queridos que morreram retornem. Glória Peres, como todos sabem, perdeu sua jovem filha nas mãos de um casal de psicopatas dignos de pena. Por Glória não sinto pena, mas sim compaixão (sentir junto). O que não me impediu de, no segundo caso de “morreu-mas-tá-vivo”, ter tido um siricotico.
Mudando de saco para mala, e voltando à minha afirmação de que Glória Peres tem a péssima mania de atirar uma questão ao público, sem fazer a menor discussão sobre a mesma, temos um assunto recorrente em suas novelas que é a maneira como algumas culturas tratam as mulheres como seres inferiores e sem direitos (“Explode coração”,”O Clone”, “Caminho das Índias”…). Nesta última, não bastasse todo o resto, Glória nos “brinda” com todos os detalhes extremamente cruéis com que se trata (ou tratava?) uma viuva na Índia (aliás, a viúva que não é viúva, é bígama, pois além do marido estar vivo, ainda é casada com uma bananeira…). E daí? Qual o personagem que faz o contraponto? Quem fala em defesa dela? Tirante alguns resmungos inúteis de Camila, ninguém.
Não quero menosprezar a capacidade de crítica e raciocínio do público, mas quando passava a novela “O clone”, por exemplo, eu via mulheres achando graça na maneira como Jade desobedecia às normas de sua sociedade, ao invés de se inconformarem com estas normas, como eu. Havia um personagem em “O clone”, o tio Abdo, que vivia afirmando que fulana deveria levar chibatadas em público, beltrana também… Há não muito tempo, André Marques, no Vídeo Show, fez uma lista de personagens de novela (mulheres, claro) que mereciam umas boas chibatadas em público. Para ver que nem a violência física contra as mulheres deixa de ser considerada piada por alguns. O que me faz pensar que é preciso mais que simplesmente mostrar a maneira como a mulher é (mal) tratada pelo mundo afora.
E, falando nisso, queria discutir a questão da violência da mulher contra a mulher nas novelas. Fora a violência psicológica exercida pelas sogras, mães, e congêneres, está virando moda mulher apanhar de mulher em novela. A vilã apanha da “mocinha”. Em casa, todo mundo tem um orgasmo, uma catarse, livra-se de todo o ódio que acumulou contra a vilã durante toda a novela. Mas tem muitos problemas aí. Primeiro que parece que violência, vinda da mulher e não do homem, é um problema menor. Não é. Violência é sempre ruim, e quase sempre o mais forte vai bater no mais fraco, e sempre vai ser injusto (fisicamente falando). Já há vários casos de grupos de meninas atacando uma menina sozinha nas escolas e, além de bater, já que a mulher valoriza tanto a própria aparência, provocando o “enfeiamento” da garota, das maneiras mais cruéis possíveis. Em segundo lugar, se a “mocinha” bate na vilã, parece justo. Mas como todo mundo acha que está certo nesta vida, então se eu estiver certa e a outra mulher errada, eu posso bater nela, é isso?
O fantástico reproduziu, dias atrás, as cenas de violência entre mulheres mais famosas nas novelas. Todas medonhas e inverossímeis, pois a vilã parece virar uma burra de repente, e não consegue sequer se defender. Temos uma cena como esta nas novelas “Celebridade”, “Senhora do Destino”… A exceção, das cenas que o Fantástico resgatou, é a briga entre duas irmãs em Dancing Days (personagens feitas por Joana Fon e Sônia Braga). É diferente, primeiro, porque elas se estapeiam mutuamente, o que dá para acreditar que pode acontecer. Segundo, porque terminam a briga, onde ninguém se machuca seriamente, entre gargalhadas. Eu, que tenho uma irmã, sei que esta é uma relação de amor e ódio, onde poderia até mesmo ocorrer uma situação assim. Agora, quando a novela “Duas Caras” tentou imitar esta cena na briga de duas mulheres que sempre se detestaram, que já se conheceram na vida adulta, e não tinham nenhum parentesco, ficou ridículo.
Em “Caminho das Índias”, Ivone apanha terrivelmente de Melissa. Chutes no estômago é que não faltam. Foram contratadas dublês para ambos os papéis… A gente fica achando que Melissa bateu em Ivone desta maneira porque Sílvia não terá coragem de fazê-lo. Que nada. Primeiro, Silvia ataca Ivone no banheiro de um rodoviária. E chutes e mais chutes no estômago… É meio que detida por duas policiais, porque as outras mulheres que estão no banheiro ficam só assistindo. Depois, absurdo dos absurdos, Silvia ataca Ivone dentro de uma delegacia, com chutes que levariam qualquer uma para o hospital, e quem a faz parar é a cunhada. Os policiais não tomam nenhuma providência. Atrás, na cena, um cartaz contra a violência doméstica. Uma piada. Já quando Raul dá um bofete em Ivone na delegacia, o delegado manda prendê-lo, ameaça com a Lei Mª da Penha (que vale para mulher que bate em mulher também, sabia?), faz um escândalo. Beleza, então agora só é preciso que os homens contratem uma mulher para bater em outra, que fica tudo certo, né? Autor de novela tem que ter consciência de sua responsabilidade social em todos os detalhes de sua história. Porque novela pode servir para educar, ou para deseducar.
Por fim, devo dizer que acredito que todos esperavam, como eu, uma cena final de amor maravilhosa entre Raj e Maya, mas não precisava exagerar, né Glória? Isso da roupa de Maya mudar da de viúva para a de noiva, vamos combinar, né? Nem em novela dá para engolir…
* Li Travassos tem graduação em Psicologia pela UFPR (1987) e Mestrado em Psicologia pela UFSC (2003), com a dissertação “Mulher, História, Psicanálise”.